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novembro 23, 2004

PORQUE MORRE O PCP?

O PCP não vai morrer por teimosa fidelidade a ideais que já há muito pedem revisão profunda. Não falecerá por medo de se transformar numa coisa outra que mete o medo do desconhecido. Não é o idealismo nem sequer a saudade que tolhe qualquer ímpeto de mudança. Se fosse alguma destas a "causa provável" que irá ser inscrita na certidão de óbito do PCP, a agonia que agora testemunhamos ainda mereceria o nosso respeito. Ou, pelo menos, alguma pena.
Não. Trata-se apenas de vontade de poder. De uma clique minúscula, entrincheirada nas caves da Soeiro Pereira Gomes, que não imagina um mundo onde não possua aquele pequenino poder de indicar gente para o Comité Central, de decidir quem é ou não "de confiança". Gente como o "operário" Domingos Abrantes prefere por certo mandar em quase nada do que nada mandar. Os outros, os mil cúmplices neste enterro prematuro, são gente ainda mais pequena: os "camaradas" que não podem mesmo perder o emprego no partido, na câmara ou nos SMAS. Ou então malta que só sabe viver em bicos dos pés, aproveitado ínfimas tribunas – como a defunta marioneta que é o CPPC – mesmo que tal implique a cumplicidade com os zombies da Soeiro.
Não julguem que se trata de questões que apenas afectam os dirigentes. A infâmia derrama-se das cúpulas para as bases: sei de militantes anónimos que aguardam há anos que lhes indiquem o organismo onde poderão exercer a obrigatória "militância", apenas porque anda no ar a suspeita de não serem "de confiança". E pouco importa que os votantes do partido procurem outros amanhãs cantantes; enquanto houver militantes, enquanto houver património e Festa para gerir, eles vão continuar, resistentes e sempre "firmes", a dar cabo do partido.
Não, não é mesmo uma questão de "ortodoxia"; trata-se apenas de um reles apego ao tacho. E Jerónimo Sousa é só o rosto supostamente operário desta camarilha. Só mais uma humilde e sempre útil arma do crime; não o verdadeiro culpado.

PS: acabo de saber que António Filipe assinou a sua sentença de ostracismo, ao votar contra o documento a ser aclamado no próximo congresso. Conheço-o apenas de raspão. Mas, mesmo assim, já me interrogava sobre o que faria ali uma pessoa assim.

Publicado por Luis Rainha às novembro 23, 2004 03:47 PM

Comentários

Um amigo meu escreveu uma vez que, se o PCp está como está, mais vale deixá-lo morrer como sempre viveu e não ficar a tentar mudá-lo. O texto dele (se não me engano foi publicado aqui há uns 3 anos no DN) estava mais ou menos nestes termos.

Acho que o pedido dele, que justifica com uma história muito longa sempre mais ou menos nos mesmos moldes, com uma dignidade própria que o PCp sempre reclamou, também acaba por conseguir explicar a situação. O PCP habituou-se a viver de uma determinada forma, de ter as suas regras internas que o serviram bem na clandestinidade e na ilegalidade. Para homens dos tempos pré-25 de Abril, a ideia que as regras que os ajudaram naqueles tempos não servirem em tempos de democracia é totalmente impensável.

Basicamente acreditam ainda na inevitabilidade marxista de chegar ao poder. Acreditam no que sempre acreditaram e são um pouco como os velhos condes arruinados, que julgam que o seu brasão de armas ainda lhes dá o direito de se comportarem como querem, mesmo depois do fim da monarquia.

O PCP vive como sempre viveu. Numa clandestinidade que agora, não lhe sendo imposta, fomenta internamente. Vive com as mesmas convicções de sempre e sem ouvir o mundo. Deixemos então o PCP, o fim de um partido nunca levou ao fim das suas causas. Deixemo-lo então morrer em paz.

Publicado por: João André em novembro 23, 2004 04:56 PM

O melhor texto que eu já li sobre o PCP em muito tempo. E só é pena que essa mentalidade de proteger o techo de quem lá está se estenda a muitos sectores onde o partido ainda tem influência. Embora, por princípio, não seja anti-PCP (como é o Daniel Oliveira), concordo com o Luís Lavoura quando escreve, no Barnabé, que este é um partido de pequenos burgueses, que não defende mudança nenhuma, só a sobrevivência do que acaba inexoravelmente.

Publicado por: Filipe Moura em novembro 23, 2004 05:17 PM

É também, admitamos, difícil de aceitar deixar de ser o Único partido da oposição e passar a ser o último.

Mas, de facto, já tiveram tempo...

Publicado por: Olho-de-mocho em novembro 23, 2004 05:24 PM

Caro Luis Rainha,
Ficam-lhe bem esses sentimentos, tanta preocupação com o morto é de admirar, veja lá ele não se levante da campa.
A sua arrogância, o seu ódio ao PCP e ao que ele representa, o seu anti-comunismo tipico de oportunista, revelam todo o esplendor neste texto.

Deixe-me que lhe diga: não lhe reconheço nem a si nem a ninguém capacidade ou legitimidade para falar dos comunistas nos termos em que o faz.

O seu texto, na totalidade, mas sobertudo em relação aos milhares de homens e mulheres que militam no PCP dando o melhor das suas vida a um combate por um Portugal e um mundo melhor, é de uma baixeza inqualificável, revelando bem o carácter de que o escreve.

As melhores saudações democráticas de um comunista que ainda se deu ao trabalho de comentar o conjunto de barbaridades que escreveu.

A história encarregar-se-à de demonstrar quem é quem, como aliás tem vindo a fazer.

Publicado por: maprotilina em novembro 23, 2004 06:11 PM

maprotilina,

Tresler é realmente uma actividade fascinante. Onde pára esse "ódio ao PCP"? Você pode persistir em confundir o Partido com a clique que agora ali reina pela divisão e pelo ódio; mas não é esse o meu caso.
Eu tenho é pena que o PCP chegue a esta triste situação, desperdiçando décadas de lutas, de sacrifícios, de idealismo. A culpa não é dos "milhares de homens e mulheres" que ali militam; é sim, como acima escrevi, dos mandantes e dos cúmplices que perpetuam o sectarismo, a luta fratricida e a canalhice dentro do Partido.

Pode, aliás, confirmar o meu "ódio" ao PCP lendo um post um pouco mais abaixo, em que apoio uma posição dos comunistas relativa ao aborto.

Publicado por: Luis Rainha em novembro 23, 2004 06:42 PM

Pois, infelizmente também eu não consigo enveredar por esta torrente de elogios ao seu texto. Não sou nem nunca foi do pc, mais por pruridos ideológicos do que por questões de prática politica. Mas o que ficou dum tempo em que me relacionei proximamente com militantes e apoiantes que ainda lá continuam, nunca foi a lógica do poder. Nunca foi o puder mandar numa autarquia, num grupo ou sequer num quadro, era e presumo que ainda o seja a luta por uma utopia. Isto não implica que não haja lutas de poder, não haja ambições e objectivos pessoais, claro que os há, só que não é o essencial das questões que se travam dentro do partido.

O que leva o Jerónimo de Sousa a SG é uma luta fratricida, mas uma luta por convicções, por métodos, estratégias e interpretações da actualidade política. Luta essa travada há muito no interior do partido e sempre, mas sempre com os mesmos derrotados. Os que se opõem à linha “ortodoxa”. O resultado desta vez é que foi mais gravoso, a corda rebentou porque a grande maioria dos militantes de base (e de cúpula) defendem um partido diferente daquele que os renovadores pretendem e não admitiram as fracturas que estavam a ser executadas.

(Há até militantes duma linha moderada que não perdoam a Edgar Correia e afins por, com o conhecimento que estes tinham do partido, ser impensável eles não saberem o que ia acontecer e a sangria que se ia criar. Para aqueles, os renovadores que conheciam o PC, só por inconsciência podiam ter veleidades de imaginar um partido com duas facções).

Ora o resultado foram importantes saídas de quadros, em quantidade e em qualidade, passando os ortodoxos a deter ainda mais poder e com a capacidade total (ou quase) de decisão e estes é evidente que nunca vão escolher o Carvalho da Silva.

É também um erro assumir, que grande parte dos trabalhadores do partido está eternamente dependente deste emprego e por consequência do PC. Para uma boa parte os contactos e experiência pessoal que adquiriram durante anos de trabalho para o partido são mais do que suficientes para encontrar um emprego, mesmo que saiam em ruptura.

Publicado por: carlos pinheiro em novembro 23, 2004 07:05 PM

Carlos,

Eu nunca fui militante do PCP. Mas estive perto e por algumas vezes trabalhei - de graça - na concepção de campanhas eleitorais comunistas. Muitos amigos meus estão ou estiveram bem lá dentro.
E continuo na minha: o que está ali hoje verdadeiramente em causa não são as questões ideológicas, mas o apego ao poder interno de uma pequena camarilha de gente insensível às mudanças e à realidade, tout court. O nível a que chegaram a discussão, os insultos e as perseguições a militantes "suspeitos" foi uma enorme surpresa para mim e motivo de profundo desgosto.

Quanto às capacidades e à independência de inúmeros funcionários do partido... também discordo de si.

Publicado por: Luis Rainha em novembro 23, 2004 09:03 PM

Estou de acordo com Luis Rainha, confirmo que todos os procedimentos dentro do PC que ele aponta são verdadeiros porque estive lá dentro e tenho amigos lúcidos que ainda lá estão e, neste particular, acrescento um facto ainda mais grave: deixou de existir dentro do PCP SOLIDARIEDADE: de causa, de partido, de ideias, porque deixou de haver no PC causa, ideias, partido... há só oportunismo, apego a um tacho muitas vezes quimérico mas que dá a alguns uma ilusão de mandar e a outros o gosto de ser mandados. Há também outra razão que, na minha incerta opinião, faz com que haja e continue a haver PC, por mais machadadas que lhe dêem, de dentro e de fora, e que se prende com uma «doença» do nosso pensamento (não sei se apenas portuguesa): nunca defendemos uma causa ou uma ideia sem lhe contrapormos a causa ou a ideia oposta; e então, se os nossos opositores atacam aquilo a que pertencemos, defendemo-las, a essa causa e essa ideia, por abastardadas e corrompidas que estejam. Dou um exemplo pessoal, confessional, sem qualquer intuito crítico: leio regularmente Daniel Oliveira e, por mais voltas que a sua cabeça e pena brilhantes dêem às coisas, vejo que ele só tem na cabeça o seu «opositor», o seu «inimigo principal», e daí o soar a tão falso, a tão PC que nos dá vontade de sermos opositores da ideia dele e seguidores da ideia do seu «inimigo principal». Outro exemplo: Pedro Mexia, que escreve quilómetros de prosa (e talvez de verso) brilhantes para veicular sempre a mesma ideia: a de que abomina o comunismo; ora dá-nos vontade de ser comunistas do PC, por mais aberrante que se tenha tornado o comunismo do PC. Outro xemplo: somos furiosamente francófonos (por mais dfeitos e degradações que tenha sofrido a cultura francófona) quando nos querem impor uma cultura dominante «oposta»: a anglo-saxónica, quiçá mais realista e aberta. Entre o espezinhamento individual ou de grupo que podemos sofrer no «nosso» partido (que nos faz passar por parvos) e o espezinhamento da direita culta ou da pseudo-esquerda igualmente culta (que nos querem fazer passar por parvos), preferimos, instintivamente, ser espezinhados pelo nosso partido, sem no fundo, defendermos uma ideia ou uma causa por si.

Publicado por: jm em novembro 23, 2004 11:04 PM

Concordo com a parte em que o jm fala da falta de solidariedade. O meu pai foi funcionário do PCP e, a certa altura, foi de certa forma obrigado a deixá-lo devido ao nascimento da minha irmã. O dinheiro não chegava para tudo.

E o resultado foi que houve um imediato afastamento de muitos "camaradas" em relação à nossa família, isto apesar de o meu pai se ter mantido filiado durante algum tempo mais. A solidariedade de que tanto se fala apenas existe enquanto se for fiel à linha condutora do partido, se houver divergências é ver a solidariedade desaparecer.

maprotilina, essa afirmação de não reconhecer legitimidade é bem típica do PCP (mas não só). Não se tem argumentos, utiliza-se o passado como justificador de tudo. Também lá tenho amigos, inclusivamente no comité central, mas isso não me impede de ter a minha análise e, independentemente da concordância ou não com a do Luís Rainha (que acho bastante certeira, mesmo que não completa - nunca o seria) deve-se ter respeito pela mesma. A sua atitude foi a contrária, aliás, a sua atitude dá razão ao Luís.

Publicado por: João André em novembro 24, 2004 08:41 AM

João André, não me referia apenas a esse tipo mais restrito de solidariedade material, mas também à solidariedade como valor humano de viver com os outros e os respeitar por pertencerem ao grupo; quero fazer uma ressalva: em alguns comunistas, sobretudo mais velhos ou então muito novos, ainda sinto essa solidariedade desinteressada, mas apenas individual, ou seja, no PC, como partido, foi banido também o valor humano da solidariedade de grupo, e é isso o que mais me dói.

Publicado por: jm em novembro 24, 2004 09:28 AM

SE O PCP FOSSE UM PARTIDO PRESTES A MORRER, SE ESTIVESSE FORA DO CONTEXTO DESTE MUNDO, NINGUÉM O ATACARIA, ODIARIA COMO A NENHUM OUTRO PATIDO.
O PARTIDO COMUNISTA PORTUGÛES QUER GOSTEM QUER NÃO GOSTEM VAI SER SEMPRE O MAIOR PARTIDO POLÍTICO PORTUGÛES, PELA SUA DEDICAÇÃO Á LUTA ANTIFASCISTA,A VIDA DOS SEUS MEMBROS QUE PAGARAM COM A VIDA ENQUANTO OUTROS QUE NUNCA NADA FIZERAM USUFRUISSEM HOJE DE LIBERDADE DE O ATACAREM NÃO SE SABE BEM PORQÛE. COMO JÁ AQUI MENCIONEI UMA VEZ NUNCA FUI MILITANTE DO PCP MAS REALMENTE PARA MIM E ACHO QUE A HISTÓRIA O DIRÁ.O PCP NUNCA MORRERÁ PORQUE OS SEUS IDEAIS CONTINUAM A FAZER SENTIDO.

Publicado por: antonieta paulo em novembro 24, 2004 10:37 AM

Algo vai mesmo muito mal num partido quando aquilo que se ressalta e defende é o seu passado. Parece-me que neste texto não está em causa o papel do pcp na luta antifascista, os milhares de militantes que deram tudo por essa luta, nem mesmo os ainda continuam a dar. É dos outros que se fala. Dos que têm tido o presente e o futuro do pcp nas mãos.
Dos que ajudam transformar sonhos, esforço, dedicação em algo sem sentido. Que saudades tenho do tempo em que acreditava que nós (eu sou militante)eramos mesmo os melhores (serios, honestos, desinteressados, dedicados, competentes). Provavelmente o problema é meu.

Já agora, Maprotilina não adianta fazer queixa aos organismos executivos, tirar-lhe as tarefas, associa-lo ao grupo dos duvidosos ou mesmo expulsa-lo,não se esqueça que ele (Luis) não é militante. Tem mesmo que reconhecer o direito a opiniões diferentes das suas.

Publicado por: ic em novembro 24, 2004 12:18 PM

jm, apesar de a saída do meu pai ter sido provocada por motivos materialistas, não me referi à falta desse tipo de solidariedade, falo também da falta de solidariedade emocional. Os meus pais não iriam nunca que o PCP os ajudasse financeiramente sem que eles algo fizessem.

Quanto ao resto, subscrevo totalmente o seu comentário. Seja pelo que vi nesses tempos (infância/juventude), seja pelo que vivi mais tarde.

Publicado por: João André em novembro 24, 2004 01:10 PM

O que mais custa é ver o estado a que chegou um partido com o passado e a história do PCP.

Publicado por: Filipe Moura em novembro 24, 2004 01:45 PM

Também a mim.

Publicado por: antonieta paulo em novembro 25, 2004 10:14 AM