dezembro 05, 2003

UMA CARTA DO QUASE HOMÓNIMO

Do José Miguel Silva, excelente poeta e colaborador bissexto do BdE, recebemos uma carta privada que decidimos publicar, com a devida autorização, por contribuir para a discussão em curso, aqui e noutras paragens da blogosfera, sobre a questão dos subsídios aos escritores. Ei-la:

«Caro José Mário,
Envio-te mais um epigrama de nada, já antigo, mas ao qual acontecimentos recentes talvez confiram uma certa actualidade.
Uma das coisas que mais dá vontade de rir em certos apóstolos do liberalismo (económico) radical é a figura triste que fazem quando expressam a sua virtuosa indignação por essa abominável entidade que é o subsídio às actividades culturais. À maior parte deles nem vale a pena lembrar o apoio de que padeceram (ou não), sob a forma de patrocínio ou outra, os Mantegna, os Purcell, – poder-se-ia enumerar aqui toda, ou quase toda, a arte ocidental produzida entre o tempo de Cimabue e o de Mozart (pelo menos) – do nosso actual contentamento. Não vale a pena lembrar-lhes porque é uma gente, salvo as notórias excepções, profundamente ignorante e a quem a cultura mete medo. Não sabem para que serve, nem como funciona. Têm receio de não a saber desligar, ou que lhes devore o futuro, ou que lhes provoque uma doença triste.
Até aí, tudo bem. A cultura pode ser de facto perigosa. Não podemos deixar de dar uma certa razão aos seus timoratos pontos de vista. Quem nasceu para lagartixa, como diz o povo, nunca chega a jacaré (e as lagartixas também são necessárias, digo eu).
Não me irrita, pois, que eles afirmem ser contra os subsídios. O que me irrita é isso ser mentira. Porque eles não são contra os subsídios. São, sim, contra os subsídios à cultura. Se for para subsidiar uma cimenteira, uma universidade privada, uma fábrica de rolhas, uma empresa de telecomunicações (pior ainda, um "jovem desagricultor" ou um pescador em terra) – nihil obstat.
Mas escritores??? Cineastas??? Companhias de Teatro??? Horror!
Enfim,
um abraço, fica bem,
Miguel»

Publicado por José Mário Silva em dezembro 5, 2003 11:47 PM | TrackBack
Comentários

Tudo é lamentável, neste texto. Nada faz sentido.

1) é um texto cobarde: por quê?

Porque ao afirmar que "não vale a pena" lembrar a quem está contra os subsidios à produção cultural os inumeros exemplos de excelencia que no passado esse tipo de patrocinios possibilitou (não há, portanto, para este homem, diferenças entre viver-se numa democracia ou num regime despotico - para não utilizar outro argumento mais óbvio contra esta pequena peça de sofistica reles), porque "é uma gente, salvo as notórias excepções, profundamente ignorante e a quem a cultura mete medo", escolheu precisamente como alvo para o seu textozito os "profundamente ignorantes", e não as "notórias excepções".

2) mente ou faz-se de parvo

ninguém, que eu conheça, que esteja contra qualquer subsidio à cultura está a favor de subsidios a qualquer outra actividade economica.

Posto isto, gostaria de dizer que não sou contra os subsidios à cultura; o que não quero é ser, por causa da coincidencia na posição final, ver colado às minhas já bastante feias fronhas certo tipo de discurso, muito bem representado pelo José Miguel Silva (que não sei quem é).

Preferiria até nunca ver na vida um filme do João César Monteiro a ter que estar ao lado de gente que pensa assim.

um abraço em brasa

Afixado por: maradona em dezembro 6, 2003 02:01 AM

Como liberal queria aproveitar para esclarecer que sou contra toda a especie de subsídios. Isto inclui, obviamente os culturais.

A existência de subsídios estatais à cultura implica, antes de mais, um favorecimento por parte do Estado a certos tipos de cultura e a certos criadores culturais. Julgo que mesmo para os defensores do sistema de subsídios esta constantação seja evidente.

Outra constatação provavelmente menos evidente para todos é que os subsídios à produção empolam artificialmente os custos de produção.

Presumo que na sua génese os subsídios à produção tenham sido visto como uma forma de estimular a procura de eventos/produtos culturais através da criação de oferta. Esquecem-se que o público não costuma consumir (desculpem a linguagem economicista) produtos que não deseja. A comprovação pode ser feita pelas diminutas audiências que têm a maior parte dos eventos culturais independentemente do constante aumento do montante dos subsídios.

Para terminatr estou em crer que o fim dos subsídios culturais não determinará o fim da cultura.

Aqui fica o depoimento de um liberal ignorante e com medo da cultura.

Afixado por: Miguel em dezembro 6, 2003 10:33 AM

Contrariando aqui o Miguel, que sabe muito mais disto que eu:

Acho, no entanto, que o estado deveria financiar aquelas actividades culturais que estão à partida condenadas a não existir num país com a nossa dimensão (subsidio à dimensão?). O Cinema e a Opera estariam obviamente incluidos, o teatro já me custaria mais a engolir, e a literatura jamais.

O montante dos subsidios que se viéssem a distribuir deveriam, acima de tudo, estar muito chegados á popularidade dos eventos financiados, e nunca permitir que um filme tão genial como As Bobas de Deus (já para não falar na bacia e na Branca) pudessem não dar prejuizo ao produtor.

A democracia tem consequencias, algumas delas desagradaveis para mim, como saber que, se calhar, no sistema que defendo, jamais será possivel ver algo tão agradável A Branca de Neve e ter que aturar o Luis Fazenda.

Afixado por: maradona em dezembro 6, 2003 11:08 AM

Há tipos muito parvalhões e esse José Miguel Silva é um deles...

Afixado por: Realmente... em dezembro 6, 2003 12:15 PM

Caro maradona

Estás a cometer uma grave imprecisão quando falas das artes que estão "condenadas a não existir". Eles podem subsistir sem subvenções estatais mas, certamente, numa dimensão bem menor do que a que existe agora. Para além disso existe sempre a hipótese do mecenato cultural.

Neste momento todo o universo de contribuintes está, na maior parte dos casos, a subsidiar uma pequena elite.

Afixado por: Miguel em dezembro 6, 2003 01:57 PM

Isso é verdade, Miguel, mas digamos que essa injustiça é qualitativamente identica à ponte de cem mil contos construida entre alcoutim e o alentejo no fim dos anos oitenta: também somos todos que a pagámos e só lá passam 100 pessoas por ano, 50 das quais eu conheço.

Discordo é que a Ópera e o Cienma, por exemplo, sejam viáveis abaixo dos cem mil contos a produção, e estou a fazer as coisas por baixo.

Concordo, claro, que é uma fatalidade bastante dificil de engolir ter que dar dinheiro a coisas que ninguém vai ver, muitas vezes (a maior parte das vezes) onaismos de autores que só têm expressão porque Portugal é uma caganita, mas considero que uma boa produção de Ópera a preços QUE SE POSSAM PAGAR também tem as suas vantagens para o país e eu, sendo parte interessada (como os gajos de alcoutim) defendo

Apenas

Afixado por: maradona em dezembro 6, 2003 05:04 PM

Mal vai a esquerda quando ainda tem de defender os subsídios culturais. Estava-se mesmo a ver, esta conversa sobre as bolsas dos escritores era gato escondido. Faz muito bem o José Miguel Silva em lembrar que o apoio financeiro aos artistas tem uma história, anterior ao mito do escritor romântico que morre de fome e tuberculose enquanto termina a obra-prima que a posteridade imortalizará.
A retórica do "onanismo" e da "elite" procura mascarar que o que se está a pagar é um trabalho: escrever, fazer teatro, dança, música e cinema dá trabalho e é perfeitamente legítimo querer viver (profissionalmente) dessas actividades; os subsídios não são um fundo de desemprego.
Quem assim trabalha quer invariavelmente ser lido, visto e ouvido, mas não devem ser só os consumidores a pagar essa actividade. E não porque Portugal não tenha dimensão suficiente para ter os públicos que suportem uma "indústria": os subsídios devem existir para que exista aquilo que de outro modo não seria possível, não só por causa dos custos de produção, não só por causa da insuficiência de público, mas porque a arte mais importante está muitas vezes à frente do gosto do público e da crítica. O financiamento ser feito pelo Estado é, aqui, um "mal menor": com todos os defeitos (nos critérios, nos montantes, no número de apoios, nos júris), tem a obrigação de ter uma política cultural, de fazer escolhas a todos estes níveis (quem decide?, quem recebe?, quanto?, por quanto tempo?, em que condições?). Acabar com os subsídios seria, em si, uma escolha e uma política: o teatro seria só o amador e o comercial (que devem também existir, mas sublinho o "só"), o cinema seria vídeo e boa vontade (e é óptimo que também haja, sublinho o "também")...
Pois é, caros liberais, faz parte do liberalismo alargar o leque de escolhas do consumidor. Reduzir a arte ao puro comércio e à boa vontade, ao diminuir drasticamente os produtos culturais à minha disposição, é anti-liberal. É sinal de uma sociedade mais livre haver filmes, livros e peças de que os maradonas e miguéis não gostem, e não precisarem de que os maradonas e miguéis gostem deles para existirem. Eu sei que custa: é a democracia.

Afixado por: Francisco Frazão em dezembro 6, 2003 09:33 PM

"Como liberal queria aproveitar para esclarecer que sou contra toda a especie de subsídios. Isto inclui, obviamente os culturais."

Basta o lápis e o papel, não é, e o resto é imaginação e génio. Cineastas ou pintores, teatro ou escultura, não têm senão que dar largas à imaginação e reinventar - digamos, por exemplo - as sombras de papel recortado projectadas na parede, comprando velas no Continente que é onde se vendem mais baratas. De resto, só mesmo a falta de imaginação - de génio, pois claro ! - impedirá um artista de fazer uma prospecção do mercado e metodicamente procurar os patronos mais convenientes. Que de cortes e salões, não temos falta, Belmiros de Avezedo e Berlusconis empastados e com muito molho e provavelmente até com salões daquele veludo de vermelho fabuloso que se vê ainda nos quadros do Renascimento italiano, e de cujo esplendor beneficiará forçosamente qualquer obra de arte.
As possibilidades não se esgotam aqui, naturalmente, é tudo questão de imaginação e iniciativa, e até há milhentas receitas já prontinhas sobre estratégias de recolha de fundos, de créditos, de investimentos, e, vejam só, até de promoção e de venda de produtos culturais. Que o povo compra o que gosta, e se gostar compra.

E portanto que esses tipos umbiguistas que querem apoios para escrever um livro, realizar um filme, montar uma peça, que comecem por provar o génio que têm na capacidade ou não de sobrevivência. Foi assim que a natureza conseguiu produzir o genial pescoço da girafa, para não dar senão um exemplo. Foi assim que a sétima arte se enriqueceu com 'Rambo' e quejandos. Artistas, intelectuais, fauna das ciências humanas, que metam a língua no saco, que é como quem diz, o nariz no ermitério onde criam (que a criação é absolutamente individual ou não fosse o indivíduo a única realidade), peguem no lápis ou mobilizem o neurónio, que para isso não precisarão de mais do que os poucos euros para pagar a conta da electricidade. Melhor ainda, trabalhem com luz do dia, que além do mais é saudável.

Afixado por: vv em dezembro 7, 2003 12:13 PM


Concordo. É perfeitamente legitimo "querer viver (profissionalmente) dessas actividades". Também é legitimo quere viver de qualquer outra actividade. O que não é legitimo é pretender coagir terceiros a suportar financeiramente a nossa actividade.

Concordo. A decisão de acabar com os subsídios será uma decisão política. Será uma decisão que devolverá aos contribuintes a liberdade de escolha. Será um decisão que acabará com uma polítca arrogante de pretender impor os tipos de cultura ao "povo" sem que este tenha alguma palavra a dizer. Será acabar com uma política que não tendo tido o pretendido resultado de estimular a procura através da criação da oferta apenas serve para criar clientelismos políticos.

Não faz parte do liberalismo alargar artificialmente o "leque de escolhas" nem impor, à sua custa, um determinado leque de escolhas que as pessoas (claramente) não desejam.

Quem quiser criar arte não-comercial poderá fazê-lo. Nenhum limite é imposto à criatividade. Não podemos é esperar, repito, que terceiros involuntariamente a financiem.

Para terminar queria voltar a frisar que sou apenas um liberal ignorante e com medo da cultura. A minha opinião será, consequentemente, bem menos relevante que a das elites esclarecidas.

Afixado por: Miguel em dezembro 7, 2003 01:07 PM

Miguel: não vale a pena insistirmos. Mais cedo ou mais tarde, alguém tinha de descobrir a verdade...

De facto, nós liberais (vulgo "lagartixas") somos profundamente ignorantes e temos medo da cultura!

Parabéns ao José Miguel Silva pela sua extraordinária sagacidade e pela coragem intelectual que demonstrou ao finalmente tornar claro este indesmentível facto que nós há muito tentávamos ocultar.


Saudações liberais,

AAA

Afixado por: AAA em dezembro 7, 2003 05:50 PM

Sou de esquerda e anti-subsídios !

Afixado por: Pedro Sá em dezembro 9, 2003 10:33 AM

Tristes tempos sombrios esses que vivemos, em que as pessoas não se incomodam em exibir com toda a arrogância a mais primária ignorância.
José Miguel Silva é uma feliz expecção que se destaca pela boa poesia que escreve. Quanto a João César Monteiro, talvez o melhor cineasta português de todos os tempos.

Afixado por: Oriana em maio 25, 2004 08:51 PM

Very useful comments - good to read

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Afixado por: online casinos access em julho 11, 2004 08:39 AM
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