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novembro 20, 2004
QUANDO ANDAVAM (MESMO) MOUROS NA COSTA
Por vezes, até se aprendem coisas a ver TV. Há uns dias, percebi por fim a razão de ser da nossa expressão "anda mouro na costa". Isto depois de um documentário sobre um naufrágio já não sei bem aonde.
Para meu grande espanto, fiquei a saber que, entre os séculos XVI e XVIII, grandes extensões das costas europeias permaneceram indefesas face aos ataques de piratas. E não apenas de corsários europeus; falo dos piratas magrebinos que, nesse período, raptaram mais de um milhão de europeus. Homens, mulheres e crianças que foram assim reduzidos à condição de escravos, em cidades espalhadas pelo norte de África - de Tanger a Tripoli, mas sobretudo em Argel. O destino desta gente era sempre igual: ou a morte na viagem ou uma vida de sofrimento incalculável. Casos como o de uma irlandesa que se casou com um califa de Marraquexe são a ínfima fuga à regra da servidão e da morte.
A Calábria, a Andaluzia e a Sicília foram as mais castigadas. Mas aldeias costeiras inglesas, e mesmo mais a norte, nunca estiveram longe do perigo. O nosso Alentejo também sofreu estas agruras; e consta que, numa só noite de 1617, mais de 1.200 madeirenses foram levados para infiéis masmorras de onde nunca voltaram.
Os cálculos de historiadores britânicos consultados pela BBC apontam para um total de 1.250.000 europeus assim escravizados. É apenas um décimo dos africanos vendidos entre 1500 e 1800; mas, mesmo assim, é um número assombroso. E a prova que, nestes pecados mais sombrios e infames, há sempre mais culpados do que à primeira vista se calcula.
Publicado por Luis Rainha às novembro 20, 2004 11:51 PM
Comentários
Sobre o assunto saiu recentemente um livro, que ao que sei ainda não foi traduzido para Português intitulado "White Gold", que vale a pena.
Publicado por: bagdade em novembro 21, 2004 05:21 PM
Estou absolutamente boquiaberta. Nunca tinha ouvido falar de algo assim! Irem piratas mouros à costa de Inglaterra sómente para capturar gente para escravizar no Norte de África?! Se não conhecesse a tua habitual seriedade nestas coisas ia dizer tratar-se de um X-File!
Publicado por: Ana Miranda em novembro 21, 2004 06:43 PM
No que te foste meter, Luís!
É óbvio que a escravatura (e qualquer outra desigualdade e malfeitoria nas relações internacionais) foi sempre um desporto dos brancos ocidentais praticado à custa dos outros povos.
Continua assim e terás direito aos insultos normalmente reservados à Zita Seabra ou à Helena Matos.
Publicado por: Leonardo Ralha em novembro 21, 2004 08:01 PM
Já para não falar nos negros agricanos que os árabes traficavam para a Península Arábica e arrabaldes...Abraço
Publicado por: Francisco Curate em novembro 21, 2004 10:22 PM
Já publiquei algo sobre isso, num congresso. E o Cervantes, que foi sodomizado anos a fio, no cativeiro em tunis? e a nau conceição abrasada pelos mouros ao largo da ericeira? e as ilhas de porto santo, corvo, canarias que sofreram razias de mais de 90% da população?
E os milhares de mouros que foram aprisionados pelos cristãos para servir como escravos da ordem de malta ou como remadores de galés?
E sabes quem beneficiava com isso? Os frades trinitários redemptores e os comerciantes de armas e produtos de luxo da europa setentrional que os vendiam, à revelia dos embargos, aos mouros que nadavam no dinheiro dos resgates. Havia muita corrupção, com intermediários europeus e judeus a afastar os religiosos das negociações, resgatando cativos por baixo preço e cobrando aos religiosos preços elevados, muitas vezes por cativos já mortos, não existentes ou mesmo já resgatados.
"Haver mouros na costa" é quando estão presentes pessoas que não devem de conhecer determinados assuntos, ou nas quais não se pode confiar. O temor, nos tempos das piratarias magrebinas, de que houvessem espiões ou denunciantes dos piratas que os informassem sobre a partida e a natureza da carga dos navios, fazia com que os mercadores observassem cautelosamente: "há mouro na costa".
Já agora, "trabalhar como um mouro" vem dos tempos dos cativos tal como o verbo mourejar..
Por volta de 1415, os primeiros contactos dos portugueses com a cidade de Ceuta fizeram-se através de acções de resgate de cativos. O próprio Rei D. Manuel pensou em fixar-se no Algarve para melhor enfrentar a ameaça turca em 1517. Uma das razões para a conquista de Ceuta fora o perigo constante que os ataques de mouros faziam às terras do sul da Península Ibérica, havendo mesmo pilhagens frequentes nas costas do Algarve - nas cortes de 1562 pediu-se a construção de fortalezas na costa algarvia e a proibição de lá morarem mouriscos, para não darem avisos, como se presumia.
Em Julho de 1548, 35 a 40 piratas tinham desembarcado na praia da Galé e cativaram 5 pessoas. Em 1573, o próprio Rei D. Sebastião embarcou para dar luta a 13 galés turcas que vogavam ao largo de Sagres
Em todo o caso, o número de cativos portugueses aumentou no Norte de África em finais do século XVI, especialmente a partir do desastre de Alcácer Kibir.
O corso foi, para os otomanos do século XVII, uma resposta ao descalabro monetário da sua economia, face ao afluxo dos metais precioso da América. Relata o redentor Frei António da Cruz, que os turcos “sendo tão enemigos” da cruz “por ser de Christo” são muito amigos dos reais cunhados com a mesma “por ser de prata fina e de lei”.
As relações comerciais entre as duas bandas do Mediterrâneo não foram interrompidas pelo corso ou pela violência. Porém, em determinados momentos, as autoridades viam-se coagidas a proibir aos mercadores a aquisição, em Argel e na zona do Magrebe, de mercadorias roubadas aos cristãos sob pena de confiscação das mesmas e da aplicação de castigos corporais. Aos delatores capazes de apresentar prova daquele delito era reservado um terço do valor dos bens consficados. Muitas vezes, a coberto da chamada “pirataria amigável”, davam-se autênticas operações de contrabando.
Em 1615, alguns corsários argelinos invadiram o Porto santo, mas foram expulsos de lá pela expedição de Manuel Dias de Andrade. Em Julho de 1616, 500 mouros saíram num navio e dois patachos de Argel para o Atlântico para apresar as naus que regressavam da Índia - como não o conseguiram, assaltaram a ilha de Santa Maria. Em 1617, fizeram o mesmo ao Porto Santo.
Na Cristande, a prioridade no resgate dos cativos era:
1) as crianças por serem susceptíveis de renegar a sua fé,
2) as mulheres
3) homens comuns
a ordem poderia ser alterada quando se tratava de pilotos ou capitães de embarcações, ou até demarinheiros por conhecerem a arte de navegar no Atlântico, nos rios, bem como a defesa dos portos. Resgatar os homens do mar era, assim, uma tarefa de suma importância porque se se convertessem ao Islão, mediante a oferta de participações compensadoras no saque, seria desastrosa a acção destes contra os países europeus. Resgatar pai ou mãe era obrigação cujo incumprimento poderia originar deserdação, como previam as Ordenações Filipinas. Resgatar um familiar era ainda um dever moral.
Os arquivos da Inquisição de Lisboa, Sevilha, Maiorca, Sicília, etc. contêm vários processos do santo Ofício levados a cabo contra arrais, nascidos na religião cristã e que se encontravam ao serviço do Islão quando foram capturados (em Espanha, uma lista mencionava que cerca de 500 cristãos se tinha convertido entre 1550 e 1670 - por exemplo, Simão Gonçalves foi feito cativo dos Mouros por volta de 1550. Renegou a fé cristã e assaltou e pilhou para os seus armadores de Argel. Preso em Portugal, arrependeu-se num Auto de Fé e chegou ainda a capitanear uma galera da Mina).
Cativos e renegados são produtos resultantes do difícil relacionamento entre a Cristandade e o Islão.
Na Península Ibérica, a temática dos cristão novos, dos judeus, dos mouriscos, dos cativos e dos elches tinha um maior peso do que a questão dos luteranos e calvinistas.
Após o momento em que caíam cativos, duas opções se colocavam aos cristãos: manterem-se fieis ao Cristianismo e esperar uma ocasião propícia para regressar – através de resgate ou fuga; ou renegar, passando a integrar-se no seio do próprio inimigo (renegados ou elches) traindo a fé e o reino.
Entre 1536 e 1700, 250 renegados de várias nações compareceram perante os três tribunais da Inquisição portuguesa. Destes, 5 eram mulheres, cerca de 50% eram portugueses e 10% eram açorianos, com um cativeiro que durou entre 3 e 35 anos.
O sequestro dava-se em viagens de longo curso, viagens inter-ilhas e mesmo em actividades de pesca na costa das ilhas.
As razões invocadas para a renegação baseavam-se muitas das vezes na administração de maus tratos (embora existisse uma prerrogativa da lei islâmica que proíbia expressamente tais maus tratos ), na acomodação de uma situação aparentemente imutável, na procura de uma vida melhor e de uma maior liberdade de movimentos e na fuga a castigos por ocasiões do cometimento de crimes. Raramente era feita por consciência religiosa já que quer os conhecimentos do Islão quer os proprios conhecimentos da religião cristã eram muitas vezes parcos e impediam a comparação.
Mudar de religião implicava todo um ritual. O cristão deveria declarar querer ser mouro, levantar a mão direita e dizer "La ilaha illa Allah Mohammed rezul Allah", a profissão de fé. Vários renegados referiram esta frase, mas quase nenhum entendia o seu significado. Implicava também mudar de nome. os mais comuns eram Ali, Mustafá e Mahomet.
Em seguida vinha a circuncisão, o que para além da dor fisíca implicava também uma marca que nunca mais se apagaria e que denunciaria o renegado caso voltasse a ser capturado na Europa. A aparência também se alterava, com o corte do cabelo e uso de traje mouro. A oração ritual, a salat era praticada muito pouco ou se o era, então era apenas dita corrompida, porque muitos dos renegados não sabiam árabe.
Em Portugal, os renegados tinham de se apresentar perante a inquisção e confessar as suas culpas. Se bem que o islamismo fosse um dos delitos mais gravosos, de um modo geral a Inquisição era bastante benevolente para com os renegados (para além de se recuperar almas perdidas, os renegados eram pessoas ainda muito válidas para a sociedade).
As penas consistiam geralmente em abjurações, instrução, penitência e pagamento das custas. Alguns, poucos, eram condenados a penas de prisão e um ou outro a degredo ou aàs galés.
Os renegados mantiveram-se nas franjas sociais de dois mundos em permanente conflito. Não inteiramente integrados no Islão e com problemas de índole diversa quando regressavam, constituíam um grupo dividido entre duas sociedades, duas culturas, duas religiões e duas vidas.
Ser-se cativo era uma vida dura. Relata Joam de Mascarenhas, em 1627, na sua "Memorável relaçam da perda da Nao Conceiçam que os Turcos queymarão à vista da barra de Lisboa" que “não há pior transe do que esperar o cativo nesta hora o amo que terá, porque um homem não pode chegar a maior desgraça, nem seus pecados o podem trazer a maior miséria, que a ser escravo, mas se a sua má fortuna o trouxe a ser escravo de ruim patrão, não tem que aguardar cousa boa de sua estrela, se não ter-se por desgraçadissimo, porque não há pior inferno nesta vida”.
Publicado por: alexandre em novembro 21, 2004 11:08 PM
"É óbvio que a escravatura (e qualquer outra desigualdade e malfeitoria nas relações internacionais) foi sempre um desporto dos brancos ocidentais praticado à custa dos outros povos.
Continua assim e terás direito aos insultos normalmente reservados à Zita Seabra ou à Helena Matos."
Não me parece. Leio este comentário (assim em jeito de provocação, ai, ai, Luis, ai, ai, nem sabes no que te metes) e dispenso a sua estupidez. Pode sempre ir passar atestados de menoridade intelectual para outra freguesia, lá pras bandas do Blasfémias e coisas tais, que eu cá, na minha suprema sabedoria de comentadora do BdE, acho o seu raciocínio assaz primitivo. Típico, aliás, de uma certa maltinha "da direita", que vive mesmo deste tipo de "achegazinha" idiótica neste tipo de assunto. Dispensável.
Publicado por: Ana Miranda em novembro 22, 2004 03:25 AM
Grande texto, ó Alexandre. Obrigado por o partilhar aqui connosco.
Publicado por: Ana Miranda em novembro 22, 2004 03:26 AM
luis
Após ler mais uma palermice do Daniel Oliveira sobre nós os barbaros
quero dar-te os parabens é bom saber que existe gente que não ve o mundo a preto e branco
Publicado por: sergio em novembro 22, 2004 10:57 AM
Cara Ana Miranda.
Veja lá se consegue arranjar um bocado de sentido de humor - talvez possa trocar na loja por igual dose de certezas absolutas das quais me parece ter um "superavit" - e não se preocupe tanto com a “maltinha” da direita.
O meu comentário foi apenas uma brincadeira dirigida ao Luis Rainha, escriba do BdE com quem consigo simpatizar e ter em alta consideração apesar de discordar de grande parte das ideias em que ele acredita. Talvez por ele as defender bem e por não enveredar pela cegueira voluntária a que tantos, na direita e na esquerda, se dedicam com fervor religioso.
Dito isto, peço desculpa se a minha "achegazinha idiótica" lhe importonou a "suprema sabedoria".
Publicado por: Leonardo Ralha em novembro 22, 2004 11:51 AM
Ok Leonardo, retrato-me. O humor de facto é coisa que me faz falta e já me conhecem por dizer disparates com alguma frequência. Você respondeu com elegância e fair play. Ver se o consigo imitar nisso de vez em quando tb. Até às próximas farpas!
Publicado por: Ana Miranda em novembro 22, 2004 04:50 PM
Cara Ana Miranda.
A falar é que a gente se entende. E ainda bem.
Cumprimentos,
Leonardo
Publicado por: Leonardo Ralha em novembro 22, 2004 05:01 PM