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novembro 20, 2004
O SANGUE MAIS MEDIÁTICO
Se a guerra civil na Costa do Marfim evoluir para um caos semelhante ao que varreu os seus vizinhos da Libéria e da Serra Leoa, não haverá uma onda de debates apaixonados na nossa comunicação social. O nome do país será repetido nos telejornais em notícias que serão sempre lidas no mesmo tom. Muita gente saberá que existem problemas graves na Costa do Marfim mas, nos debates, nas colunas de opinião, nos blogues, ninguém levantará o assunto para defender nenhum dos lados ou para se "envolver" naquilo que estiver em jogo nas ruas de Abidjan. Todos os comentadores políticos de médio porte terão aprendido duas ou três frases sobre o assunto. Depois de as dizerem, talvez baixem o olhar em silêncios onde se poderá adivinhar o pesar, ou a indignação, ou aquilo que cada um quiser adivinhar porque, na verdade, serão apenas silêncios, feitos de silêncio e a dizerem silêncio. Ninguém defenderá uma posição com os olhos a brilhar, ninguém tentará levantar a voz para sobrepor as suas ideias às de outro, ninguém tentará interromper ninguém. Se o assunto surgir, o máximo que iremos ouvir será duas ou três frases aprendidas por um que as aprendeu com outro que as aprendeu com outro. Os diferentes sítios onde cada um deles vai aprender as suas frases, bem como os retoques pessoais de linguagem, determinarão um número razoável de frases que, no entanto, todas juntas, dirão pouco. Com sorte, poderemos assistir também a descrições vagas da situação da África ao sul do Sahara ou a pequenos discursos sobre o colonialismo que, obviamente, serão acertado pelos moldes de sempre: liberal, conservador, esquerda, direita. Enquanto isso, nesse dia, como hoje, nas ruas e nas estradas de terra e pó da Costa do Marfim, haverá sangue. Sangue. Vermelho, limpo, humano.
Publicado por José Luís Peixoto às novembro 20, 2004 03:03 PM
Comentários
Mas quem se interessa pelo que acontece na Costa do Marfim? Mas quem interessa pelos massacres que acontecem permanentemente em África?
Debater ou noticiar para quê? quando o debate e a notícia dos futebóis é que dá o share.
Nós humanos somos assim, temos o maior desumanismo pelo que acontece ao nosso semelhante.
Um abraço. Augusto
Publicado por: misswyoming em novembro 20, 2004 03:59 PM
bela posta, para começo de participação no Bde.
Publicado por: gibel em novembro 20, 2004 04:03 PM
Os silêncios... Há quem tenha tanto medo do ruído. Do alarido. E no entanto não há pedra pior, mais injusta, mais terrível, mais acerada, que a pedra do silêncio.
Publicado por: Onan em novembro 20, 2004 04:14 PM
outro saramago a escrever com os mesmos silêncios repetidos do saramago. o que é que tu queres dizer com isto? que aprendeste com o outro que aprendeu com o outro numa sucessão de ignorâncias sobre o assunto que antes pertencia a outros? e claro que o sangue é de esquerda. e humano.
Publicado por: fernando esteves pinto em novembro 20, 2004 04:25 PM
Não te preocupes J.L.P. Tal como a Serra Leoa ou Libéria, a Costa do Marfim estará em destaque na próxima edição da «World Press Photo».Provavelmente com direito a 1º prémio.
Publicado por: thirdbacus em novembro 20, 2004 04:41 PM
Nem mais, Zé Luís. Bela estreia.
Publicado por: José Mário Silva em novembro 20, 2004 05:24 PM
De como um post sobre a Costa do Marfim - presumivelmente sangrento, piedoso e triste - pode ser inteligente, sensato, correcto, mesmo falando do humano sangue. Enfim, uma entrada literária no BdE que muito se saúda, a acrescentar-se a outras escritas como a do Avis, do Mar Salgado, da Revolta...
Cumprimentos. Helder
Publicado por: HFR em novembro 20, 2004 07:21 PM
:)
Publicado por: HFR em novembro 20, 2004 07:26 PM
Caro José Luís Peixoto,
Não creio que o problema (maior) esteja em quem comenta ou faz as notícias. Está nos detentores do poder que, historicamente, preferiram sempre quase-lavar as mãos das zonas mundiais pobres. Numa bacia de sangue.
Publicado por: Nuno Pinho em novembro 21, 2004 01:29 AM
fiquei com a impressão,tenho de tomar o gosto aos odores,aos movimentos lentos que seguram a minha visão,só me sinto só,a razão do outro faz do todo uma conclusão,não estou perdido,encontro a sua pegada num mundo perdido da antiga natureza,gritando,gritando alto,corro para longe do socorro que a mim me é dirigido,estou a tentar definir o meu equilibrio.Haverá mais,mas será tarde!
Publicado por: triciclo em novembro 21, 2004 01:40 AM
Concordo com o Nuno Pinho.
Publicado por: Avioneta Malabarista em novembro 21, 2004 02:25 AM
Têm toda a rasão.
Exprimentem ver o http://lerporprazer.blogspot.com. é um blog de leitura dos alunos do 8ºano da escola S.Gonçalo, Torres Vedras.
Publicado por: aluno8ano em novembro 21, 2004 12:21 PM
Excelente texto, lúcido e claro.
É certo que mesmo nestes casos há sangues de 1ª e de 2ª, na promoção da desgraça há filhos e enteados. E tudo isto é uma espiral difícil de definir: os media falam do que interessa mais, ou os leitores interessam-se mais por aquilo que lhes é apresentado de um modo "especial"??
Publicado por: Emiéle em novembro 21, 2004 03:15 PM
Muito bem visto, Emíele.
O interesse dos espectadores configurado à ementa dos media não faz adivinhar uma (crescente) atitude de passividade e não-questionamento face à realidade por parte dos espectadores. Quem faz a educação (se ela não é automática) da descodificação da realidade?
Publicado por: Nuno Pinho em novembro 21, 2004 03:59 PM
Coloque-se um ponto de interrogação no final da primeira frase do meu comentário acima.
Publicado por: Nuno Pinho em novembro 21, 2004 04:01 PM
Um belo post: vermelho, limpo e humano.
Publicado por: zás!pás! em novembro 21, 2004 07:02 PM