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novembro 04, 2004

QUANDO A CLAREZA E A SIMPLICIDADE SÃO IMPOSSÍVEIS

Pelo post que o Filipe deixou abaixo - e com o apoio das concordâncias citadas – poderíamos acreditar que a derrota de Kerry se ficou a dever, em grande parte, à inabilidade do candidato e seus estrategos. Que não souberam opor-se à unicidade do posicionamento de Bush Jr. com armas semelhantes: as tais "clareza" e "simplicidade".
Ora eu creio que tal seria sempre impossível; e que esta será sempre a grande, enorme debilidade de qualquer challenger à presente administração republicana, enquanto durarem as ameaças terroristas.
O que andou Bush a pregar pelos EUA afora? Que ele é, mais do que um Presidente, um Comandante-em-Chefe, o homem providencial que soube reagir ao 11 de Setembro, o guerreiro que conseguiu levar o fogo da Justiça americana até aos seus inimigos, trazendo "Honra" ao país (esta já é do discurso da vitória). Quando grande parte da nação continua convencida das ligações de Saddam a Osama, quando os marines continuam a cair que nem tordos pelas ruas do Iraque, como pode alguém afirmar-se contra esta guerra? Como pode um candidato democrata oferecer o flanco a acusações de "desmoralizar as tropas" e de ser "amigo dos terroristas"? Mais eficaz seria imolar-se pelo fogo a meio de um debate...
As aparentes tibiezas do discurso de Kerry acerca do Iraque radicam-se todas neste busílis. Claro que ele, sabendo o que se sabe hoje, nunca invadiria o Iraque, pois não é um demente intoxicado por sonhos de grandeza. Mas como admiti-lo? Como surgir face à home of the brave com discursos pacifistas, neste momento? Impossível. Mencionar Guantánamo? Só se quisesse ser logo apodado de "terrorist lover"...
Kerry nunca poderia ter um posicionamento "simples" e "claro" face a Bush. Nunca poderia revelar por inteiro as suas convicções relativas a esta guerra. Fazê-lo implicaria automaticamente uma derrota inapelável. E, contra o quase invencível argumento "Segurança = Guerra ao Terrorismo", que armas usar? O estado da economia, as falsidades já descobertas nas causas para a invasão, e pouco mais.

Ou seja: Bush tinha ao seu dispor aquilo que em marketing se chama "Unique Selling Proposition"; uma oferta bem focada e inimitável. E fortíssima, pois apela ao valor mais primordial e básico do ser humano. A sobrevivência, sua e dos seus.
Assim, bastou a Bush subir ao pedestal do grande guerreiro americano e vestir a túnica do herói religioso, com a sagrada missão de cumprir a vontade de Deus. Aos seus capangas, ficaram entregues os trabalhos sujos mas úteis, como as calúnias acerca do comportamento de Kerry no Vietname, a manobra de diversão a propósito dos casamentos entre gays, o controlo de media instrumentais como a Fox News, as constantes alusões à cooperação entre a Al-Qaeda e Saddam, os periódicos alertas para iminentes ataques terroristas que, afinal, nunca chegaram.
Não se trata pois de uma questão formal, de elegância e concisão na dialéctica; a "complicação" do discurso de Kerry surge principalmente no plano conceptual: comparado ao apelo da segurança, tudo o mais é visto pelos eleitores como "complicado" e "obscuro". Muito conseguiram os Democratas nesta campanha, jogando contra um adversário com cartas e trunfos bem superiores.

Publicado por Luis Rainha às novembro 4, 2004 11:47 AM

Comentários

Um simples comentário: concordo.

Publicado por: Olho-de-mocho em novembro 4, 2004 12:31 PM

Discordo parcialmente. Creio que um dos motivos por que Kerry perdeu prende-se precisamente com o facto de ele ter sido vago e ambíguo no estabelecimento de uma posição sobre a guerra no Iraque, fosse essa posição qual fosse. Kerry tinha duas alternativas: (a) apoiar incondicionalmente a intervenção no Iraque, o que seria subscrever a política de Bush; ou (b) criticar abertamente a intevenção no Iraque e estabelecer um prazo curto para a retirada total das forças americanas, afirmando que o trabalho estava feito (depor o ditador) e que o Iraque, como está, não merece a vida de nem mais um soldado americano (a ONU que trate do que fica). Kerry ficou a meio, como em tantas outras coisas. Não incendiou. Não penetrou. Perdeu.

Publicado por: The Bird em novembro 4, 2004 02:25 PM

Olha que eu julgo que era exactamente esse o obstáculo intransponível: Kerry não podia ir pelo caminho a), pois isso seria admitir que não valia a pena mudar e o rumo b), em tempo de guerra e face a uma opinião pública que a apoia, seria um suícidio eleitoral.
Restava a opção c), a das meias-tintas. Inevitável mas muito débil.

Publicado por: Luis Rainha em novembro 4, 2004 02:47 PM

Precisamente. Kerry tinha que demonstrar aos americanos que não estamos em "tempo de guerra"! De facto, não estamos. O tempo é de guerrilha, para a qual as forças armadas convencionais norte-americanas não estão preparadas. A solução seria explicar isso mesmo aos americanos, retirar em 6 meses e deixar que a ONU, se assim o entendesse, tomasse conta do país e da formação dos militares e dos polícias iraquianos. A resistência iraquiana hoje não constitui um perigo para os EUA, mas apenas para os soldados americanos no Iraque. No entanto, se o objectivo é eliminar a guerrilha e, consequentemente, riscos futuros, então estabeleça-se claramente e cumpra-se esse objectivo (o que também se faz nesses 6 meses).

Publicado por: The Bird @ frangosparafora.blogspot.com em novembro 4, 2004 03:52 PM

Uma campanha eleitoral deve ser o pior momento possível para explicar aos americanos que a "guerra" que já consumiu para cima de mil dos seus filhos afinal não é bem uma guerra. A permanência e fortalecimento da guerrilha no Iraque representará a derrota dos objectivos iniciais da invasão: impedir este país de ser um santuário para os terroristas. Eliminá-la por certo que não é coisa para seis meses; já há quem fale em dez anos...

Publicado por: Luis Rainha em novembro 4, 2004 04:20 PM

Nunca saberemos como reagiriam os americanos a tal afirmação radical. Sabemos sim que não gostaram da posição "neutra" que o Kerry adoptou. Quanto ao prazo, se os EUA quiserem, fazem-no em 6 meses (ou menos). Mas po detrás do prazo de 10 anos podem estar algumas das mesmas razões que, no início, levaram à invasão...

Publicado por: The Bird @ frangosparafora.blogspot.com em novembro 4, 2004 07:22 PM

Gostei do texto, mas ficou-me uma dúvida: não foi por se opôr claramente à Guerra no Vietname, enquanto esta decorria, que Nixon ganhou as eleições em 1968?

Publicado por: NunoP em novembro 5, 2004 06:30 PM

Nuno,
O Nixon, durante a campanha que o opôs a Humphrey, anunciou que tinha um "special plan" para acabar com a guerra no Vietname, sem revelar grande coisa mais. No entanto, esse conflito já se tornara muito impopular e, detalhe importante, não era visto por ninguém como uma guerra de auto-defesa e de retaliação, como é a presente guerra no Iraque. Aqui, como em muita outra coisa, o 11 de Setembro faz toda a diferença.

Publicado por: Luis Rainha em novembro 5, 2004 07:05 PM