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novembro 03, 2004

PORQUE GANHOU BUSH

Parece que estou um bocadinho menos deprimido que aqui os parceiros e provavelmente a razão é que há já uns dias tinha o palpite que Bush ia ganhar.

O palpite era em parte irracional e em parte por me colocar nos jeans do típico americano, divorciado ou casado segunda vez, com sessenta horas de trabalho por semana, aterrado com o 11 de Setembro e esperançoso de um dia ser milionário.

Vejamos: nos tempos em que os democratas dominavam o congresso, Bush negociou um diploma de promoção da educação e outro de apoio à compra de medicamentos que favorecem largamente as classes mais desfavorecidas - se eu estivesse em dificuldades não esqueceria isso tão depressa.
Cortou nos impostos, beneficiando os que são ricos ou os que a isso aspiram.
Manteve o país sem atentados desde o 11 de Setembro. Mesmo considerando a Guerra do Iraque, fazendo uma conta grosseira vemos que nela só morreram 1000 americanos - contra os 3000 das Torres Gémeas - um resultado positivo. A guerra pode não estar a ser muito famosa, mas desde que haja segurança interna e desde que Bush não seja forçado a recorrer ao serviço militar obrigatório para a sustentar não é assim tão preocupante quanto isso.
A economia vai bem, apesar do défice e do desemprego. Mas o défice não afecta o quotidiano das pessoas e as vítimas do desemprego pertencem aos quase 50% de americanos que não votam.

Logo, mudar para quê? Ainda para mais se o adversário aparentemente concordava com o princípio de todas as decisões tomadas?
Eu, se fosse americano e mais dado ao pragmatismo quotidiano que às questões de política internacional provavelmente também votaria Bush.

Acrescente-se que Bush conseguiu transmitir a sua mensagem de forma muito mais simples e eficaz (ver quadro "Most Important Quality" para ver os eleitores americanos confirmarem-no).

Ao contrário do que pensa o Tcher, não é uma questão de deturpar ou simplificar as questões, mas colocá-las em moldes que as pessoas as compreendam, as integrem nos seus esquemas mentais e se consigam identificar com elas.
Como observa o George Lakoff, desde a década de 60 que os conservadores têm vindo a trabalhar a linguagem de forma a esta moldar-se aos seus princípios ideológicos para que estes pareçam claros, intuitivos e óbvios. O seu sucesso tem vindo a ser tão grande que nós próprios já usamos o seu vocabulário. Porque é que, a propósito dos impostos, falamos de "carga fiscal" como se eles fossem um fardo de que desejamos libertar-nos e não de "participação social" ou "contribuição cívica" para os representar intuitivamente como o contributo de cada indivíduo para a sociedade em que se insere?

Porque é que Bush foi capaz utilizar uma expressão tão poderosa "sociedade de proprietários" - com todas as conotações de prosperidade e tranquilidade individual e colectiva que isso implica - e Kerry se perdeu em explicações, problematizações e divagações que ninguém consegue citar de memória.

Lamento, Tcher, mas por muito complexas que sejam as questões, apresentá-las de forma complicada nunca convenceu ninguém da sua importância.

P.S. - Um exemplo: neste artigo do NYT defende-se que os republicanos ganham porque inventam falsas questões para esconder os verdadeiros problemas. Um bom exemplo é do casamento gay. O problema foi inventado pelos republicanos que queriam passar um emenda constitucional para proibir o casamento entre homossexuais. Os democratas acharam a medida uma patetice, pois era preferível a questão ficar em aberto consoante o entendimento de cada religião, e os conservadores aproveitaram para os colar a posições de "destruição da família heterossexual", "ataque à fé", etc.
Outra é as armas, em que os democratas defendem o registo do porte de armas, e os republicanos habilmente passam a mensagem que o objectivo é proibir todas as armas.
Tudo questões de manipulação da linguagem.

Publicado por Jorge Palinhos às novembro 3, 2004 06:15 PM

Comentários

LUTAR...LUTAR!
UNIVERSITÁRIO,

O Ensino Superior Público está, neste momento "tendencialmente privado". Hoje no Ensino Superior Público o financiamento é cobrado à cabeça, como tal o ensino também feito à cabeça com a sua consequente diminuição de qualidade. Nunca num Estado onde a taxa de licenciados entre os 24 e os 64 anos é de apenas 9% se tomam decisões, políticas que em nada promovem um verdadeiro Ensino Superior Público de Excelência, a que todos temos direito, como serviço Público. Mais além disso, estas mesmas políticas, colocam em sério risco de exclusão, tanto colegas nossos, como outros que por falta de meios financeiros não o possam vir a ser.

Conscientes desse facto apelamos à participação geral de todos os estudantes na Manifestação Nacional a ter lugar em Lisboa dia 4 de Novembro.

Publicado por: PUBLICUS em novembro 3, 2004 07:33 PM

"Porque é que, a propósito dos impostos, falamos de "carga fiscal"(...)"

A resposta está na ideia subjacente às suas palavras:
"Cortou nos impostos, beneficiando os que são ricos ou os que a isso aspiram."

Os impostos são uma penalização ao esforço individual dos "que a isso aspiram" ou das empresas em criar mais riqueza.

Publicado por: LA em novembro 3, 2004 08:01 PM