outubro 29, 2004
OS FILHOS DAS OUTRAS

Ainda hoje a TSF nos transmitiu palavras de uma açoriana, emigrada nos states, que há pouco enterrou um filho marine, morto no Iraque: "Eu acho que este presidente está a fazer um bom trabalho. Antes as bombas a cair em cima dos filhos das outras que em cima dos nossos."
Se vocês imaginam que tão cedo o americano médio vai descobrir que não existiu qualquer relação entre Saddam e o 11 de Setembro, bem podem aguardar mais uns quantos ciclos eleitorais. Se vos passa pela cabeça que esta história dos 100.000 civis assassinados no Iraque alguma vez vai aparecer na ABC ou na Fox, já é hora de voltarem ao nosso planeta. Se sonham que isso vai pesar um grama que seja na balança moral dos nossos compatriotas que apoiam Bush, também devem pensar que é possível, com argumentos lógicos, convencer o Osama a inscrever-se na Opus Dei.
PS: O PDF da "Lancet" onde é apurada a hedionda contabilidade de cadáveres no Iraque já está disponível. De seguida, deixo-vos a introdução do mesmo:
Mortality before and after the 2003 invasion of Iraq: cluster sample survey
Les Roberts, Riyadh Lafta, Richard Garfield, Jamal Khudhairi, Gilbert Burnham
Summary
Background In March, 2003, military forces, mainly from the USA and the UK, invaded Iraq. We did a survey to compare mortality during the period of 14·6 months before the invasion with the 17·8 months after it.
Methods A cluster sample survey was undertaken throughout Iraq during September, 2004. 33 clusters of 30 households each were interviewed about household composition, births, and deaths since January, 2002. In those households reporting deaths, the date, cause, and circumstances of violent deaths were recorded. We assessed the relative risk of death associated with the 2003 invasion and occupation by comparing mortality in the 17·8 months after the invasion with the 14·6-month period preceding it.
Findings The risk of death was estimated to be 2·5-fold (95% CI 1·6-4·2) higher after the invasion when compared with the preinvasion period. Two-thirds of all violent deaths were reported in one cluster in the city of Falluja. If we exclude the Falluja data, the risk of death is 1·5-fold (1·1-2·3) higher after the invasion. We estimate that 98000 more deaths than expected (8000-194000) happened after the invasion outside of Falluja and far more if the outlier Falluja cluster is included. The major causes of death before the invasion were myocardial infarction, cerebrovascular accidents, and other chronic disorders whereas after the invasion violence was the primary cause of death. Violent deaths were widespread, reported in 15 of 33 clusters, and were mainly attributed to coalition forces. Most individuals reportedly killed by coalition forces were women and children. The risk of death from violence in the period after the invasion was 58 times higher (95% CI 8·1-419) than in the period before the war.
Interpretation Making conservative assumptions, we think that about 100000 excess deaths, or more have happened since the 2003 invasion of Iraq. Violence accounted for most of the excess deaths and air strikes from coalition forces accounted for most violent deaths. We have shown that collection of public-health information is possible even during periods of extreme violence. Our results need further verification and should lead to changes to reduce non-combatant deaths from air strikes.
Publicado por Luis Rainha às outubro 29, 2004 01:26 PM
Comentários
Realmente tens razão. Não podemos deixar que continuem a ser esses ignorantes e obtusos dos americanos a decidir sobre o seu Presidente. Pessoas esclarecidas e lúcidas como nós, pesse a minha imodéstia, é que deviam votar. Bom, se calhar nem era preciso votar: os mais esclarecidos entre os esclarecidos decidiam entre si o que era melhor para a América e, por arrastamento, para o Mundo. Penso que todas as nações progressistas se deviam juntar e aprovar uma resolução deste género na ONU, esse espaço de diálogo planetário, e obrigar os EUA a aceitá-la. Estas eleições americanas preparam-se para ser a prova definitiva de que a democracia é tão valiosa que não deve ser manejada por qualquer um. Quem ainda não atingiu ainda o certo grau de esclarecimento político mais vale não ser eleitor.
Publicado por: Paulinho em outubro 29, 2004 02:20 PM
Vê lá se o teu comentário não aterrou na pista errada: o exemplo que cito até é uma portuguesa!
Quanto ao resto, não acuso os americanos de serem "ignorantes e obtusos"; acuso sim os media que os rodeiam de encobrimento e parcialidade.
Publicado por: Luis Rainha em outubro 29, 2004 03:55 PM
a memória ou a atenção podem pregar-nos partidas. a sra q enterrou o filho há mais de um ano não disse nada disso. disse, aliás, que "a guerra do iraque ´e uma coisa muito estúpida porque as mães vão ficar sem os seus filhos". a autora da frase referida no post é uma outra portuguesa com 21 anos e sem filhos. dá-se o caso de surgirem as duas na mesma reportagem mas não são a mesma pessoa. o rigor é sempre uma coisa valiosa sobretudo quando se discutem problemas sérios.
Publicado por: joão paulo baltazar em outubro 30, 2004 09:13 PM
Ia postar sobre isso. Pelo chocante que foi ouvir aquelas palavras. Já não vale a pena. Disseste tudo!
Publicado por: Monty em outubro 31, 2004 01:54 AM