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outubro 29, 2004

A UTILIDADE POLÍTICA DA SPACE OPERA

Durante décadas, os adolescentes americanos e – em menor grau - britânicos, devoraram por atacado sangrentas epopeias espaciais em que os heróis inevitavelmente desintegravam hordas de alienígenas com montes de tentáculos e más intenções. Se um planeta inteiro fosse erradicado, melhor ainda. Afinal, tratava-se de bichos imundos, não de pessoas; não eram pais, filhos, mães de alguém. Depois, chegaram os vídeo-jogos. E tudo continuou a resumir-se a good, clean fun; aqueles impérios de fantasia, com as suas armas terríveis, nunca poderiam existir, pois não?
Hoje, vemos o jeito que dá às administrações de superpotências agressivas ter uma opinião pública com o nervo moral criado à base de semelhante dieta. Se calhar, os falcões sabem que podem confiar numa mole de alucinados capazes de reagir assim: "Morreram 16.000 civis iraquianos desde a invasão? E depois? Claro que valeu a pena expulsar Saddam; o preço até foi módico. O quê? Afinal foram 100.000 vítimas? Não estou a ver o problema. Mas onde é que fica isso do Iraque? E aquela malta, sempre de cócoras e de burcas, nem parece bem humana..."
Logo no início da invasão, vimos imagens de um soldado americano ferido numa perna a ser confortado por um camarada. E perguntava o ferido: "What the hell happened?" Resposta: "It was an iraqi. You got shot by an iraqi; they’re everywhere!" Assim como quem fala de uma praga qualquer; usado o termo "iraqi" como que para descrever um habitante de Alfa do Centauro. E estes eram soldados em plena ofensiva. Para quem tele-veja, sentado algures no Ohio com uma Bud na mão, as bonitas explosões em technicolor e o voo sonhador dos Apaches, haverá mesmo muita diferença entre esta guerra no outro lado do mundo e mais uma aventura de Luke Skywalker?

Publicado por Luis Rainha às outubro 29, 2004 01:57 PM

Comentários

Apesar do meu desagrado pela América, o contrário, gostar do inimigo seria um acto masoquista, até chego a ter pena do povo americano, que nasce, vive e morre enganado pela ilusão holywoodesca. O seu baixo nível cultural tranforma-o na criança apetecível.
Um abraço. Augusto

Publicado por: misswyoming em outubro 29, 2004 02:31 PM

Sim, sim, nada que se compare ao altíssimo nível cultural do povo português.
É sempre engraçado ler os delírios sobre o pretenso baixo nível cultural da maior potência cultural actual. Então com a autoridade cultural de um português?!

Publicado por: Zeca Picão em outubro 29, 2004 03:44 PM

A minúscula "autoridade cultural de um português" topa-se mesmo é com comentários assim. Quem é que lançou juízos de valor aqui? E se te dissesse, ó Pico, que a minha juventude também foi nutrida a FC?

Publicado por: Luis Rainha em outubro 29, 2004 03:49 PM

Pois eu continuo a nutrir-me abundantemente de FC mesmo hoje e assinaria por baixo deste texto se não fosse um pequeno detalhe:

Há alguma - pouca, é certo - space opera que não segue a cartilha que o Luis tão bem descreve e em vez disso convida a pensar criticamente sobre ela. Li há pouco tempo um óptimo exemplo: Guerra Sempre, de Joe Haldeman. Altamente recomendável.

Claro que não é esta a space opera que o teenager-tipo papa com as suas pipocas. No cinema, a SO é incomensuravelmente pior que nos livros (embora também haja muita merda nos livros) e incomensuravelmente mais tingida de ideologias fascizantes. Um exemplo óbvio é o de Star Wars, mas o mais evidente é o do filme Starship Troopers, do Verhoeven, que consegue ser pior que o já horrendo romance homónimo do Heinlein.

Publicado por: Jorge em outubro 29, 2004 04:16 PM

Estava a referir-me ao comentário acima e não ao post do blogue...

Publicado por: Zeca Picão em outubro 29, 2004 04:19 PM

Zeca,
Desculpa lá, então, o rastilho curto...

Publicado por: Luis Rainha em outubro 29, 2004 04:22 PM

Jorge,
Imagina que eu, quando jovem inconsciente, até adorava as coisas do EE "Doc" Smith...
Quanto ao "The Forever War", claro que tens toda a razão. Mas olha que estou em crer que o filme "Starship Troopers" tem muita auto-ironia, sobretudo quando nos mostra os meandros daquela sociedade neo-espartana. Seja dito que essa ironia não mora mesmo nas páginas do bom Robert...

Publicado por: Luis Rainha em outubro 29, 2004 04:27 PM

Restringir a influência a apenas a adolescentes americanos e ingleses não me parece realista, penso que toda a cultura adolescente ocidental consumiu (e consumirá) estes produtos.

Em relação aos jogos de computador não nos podemos esquecer que os de maior sucesso, nos últimos tempos, resolveram abordar temas muito mais polémicos como protagonizar criminosos, serial-killers, etc.

Relativamente ao Starship Troopers, a auto-ironia sempre me pareceu evidente.

Adoro o Star Wars!

Publicado por: Zeca Picão em outubro 29, 2004 04:38 PM

Hum... em relação aos primeiros space opera e, por exceção, aos mais ou menos recentes Alien, Predador e Tropas Estrelares, tudo bem. Mas isso não vale para o Guerra nas Estrelas nem para o Jornada nas Estrelas, como tampouco para a política externa dos EUA. Além disso, é equivocado contabilizar civis mortos nas operações militares dos EUA no Iraque e outros lugares sem considerar os mortos civis nesses lugares sem tais operações militares. Ou seja, em política, muitas vezes trata-se de diminuir o problema. No caso do Iraque, se os EUA pudesse usar da mesma truculência que o regime de Sadan usava contra os Iraquianos, as coisas seriam muito mais simples... inclusive sem ninguém ficar sabendo ao certo, quantos civis seriam mortos pela repressão.

Publicado por: Régis Antônio Coimbra em outubro 29, 2004 04:47 PM

Também assino por baixo o texto do Luís Rainha, e levanto o mesmo senão que o Jorge Candeias.

Sobre as tendências fascizantes de muita ficção científica da chamada "Golden Age", recomendo a leitura do _The Iron Dream_ do Norman Spinrad. É uma crítica acérbica que se faz passar por um hipotético romance de fc escrito por Hitler, se por acaso Hitler se tivesse tornado num escritor de "pulps" em vez do ditador sanguinário que todos conhecemos.

Mas como o Jorge bem apontou, nem toda a "space opera" é necessariamente reaccionária: o livro do Joe Haldeman é um bom exemplo. Há também os romances do trotskyista Ken MacLeod, a genial série da Cultura do Iain M. Banks, e os _Centauri Device_ e _Light_ (este último é soberbo, um dos melhores livros que já tive o prazer de ler em qualquer género) do M. John Harrison.

Quanto ao Star Wars e Star Trek, acho-os demasiado simplistas e bem-pensantes para o meu gosto. Para não falar da xenofobia implícita no Star Trek (onde os extraterrestres, cada um mais estereotipado que o outro, se prostram perante a hegemonia da Federação ou se tornam inimigos mortais desta) e o anti-racionalismo galopante e outros romanticismos de ordem duvidosa do Star Wars, ambos baldes de água fria para mim.

Acerca do filme do _Starship Troopers_, o Luís Rainha tem razão em referir a auto-ironia. O Paul Verhoeven revelou há algum tempo em entrevista que achou o livro arrepiante, e que fez de propósito para exacerbar os aspectos mais sinistros. A ver se encontro a referência algures . . .

Publicado por: Luís em outubro 29, 2004 05:10 PM

Cá está:

http://industrycentral.net/director_interviews/PV01.HTM

Publicado por: Luís em outubro 29, 2004 05:21 PM

um americano vale quantos iraquianos?

Publicado por: vitor matos em dezembro 29, 2004 01:00 PM