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outubro 17, 2004
AS POBRES ELITES QUE VAMOS TER
Explicação para a pobreza franciscana dos encéfalos dos nossos empresários? Olhem; se a tivesse, estava agora a enriquecer com seminários milagrosos e livros de auto-ajuda tipo "Tenha mais lucros sem deixar de ser ignorante".
Mas suspeito que a marosca jaz algures nas nossas tradições culturais e já se entranhou nos processos de aculturação da nossa juventude. Eu esclareço: a minha filha de 15 anos é aluna de uma das escolas do top ten do ranking do ministério da Educação; um viveiro de "gente importante", suponho. Ela foi a minha fonte para o que se segue.
Querem saber como é que a malta adolescente "fixe" descreve os colegas com melhores notas? São os "cromos". E que tratamento é reservado a esses excêntricos? A exclusão. Eles são definidos como "rejeitados" e enviados para o fundo das prateleiras sociais.
O que vai acontecer daqui a uns anos? O que anda a acontecer há gerações: os "párias" tratam de se camuflar, disfarçando o seu talento e conformando-se à mediocridade reinante, ou então emigram para onde o mérito seja reconhecido, não castigado. Os espertalhões dominantes, por seu lado, crescem na graça da sua ignorância, convencidos de que o mundo é mesmo assim e sabendo que quem se arma em saliente nunca irá a lado algum. Na faculdade, estes andarão nos copos enquanto os "outros" preparam doutoramentos que irão depois aplicar algures no estrangeiro.
Assim se eterniza a desgraça de um país irremediavelmente atrasado.
Publicado por Luis Rainha às outubro 17, 2004 12:12 AM
Comentários
um bocado exagerado mas Ok....
Gostei particularmente da expressao
"pobreza FRANCISCANA dos encéfalos dos nossos empresários " lol ( os caps sao meus)
onde é que eu oico isso regularmente ?
Publicado por: Plus em outubro 17, 2004 11:42 AM
País irremediavelmente atrasado!?? Nem comento, porque seria demasiado duro! De facto, este não é o meu espaço! Cruzar os braços? Nunca! Nem no "Além"!
Por isso criei: http://sociocracia.blospot.com
Publicado por: Biranta em outubro 17, 2004 11:42 AM
Também tenho essa noção. Não sei, contudo, se será TÂO grave assim. Em todos os tempos existiram o que dantes se chamavam "os ursos" ou os "marrões" e a ideia era que nesse tempo também eles se auto-excluiam. E não será que o grupo da tua filha também é bom para além do aspecto social? Se a escola está entre as primeiras é porque na generalidade não são tão maus alunos assim...
E por outro lado, o conhecimento e cultura não está só nas notas, não é? Quando digo que tenho a mesma ideia, é algum desprezo que sinto entre alguma adolescência e a cultura tradicional, vista como ridícula e sem interesse.
Publicado por: Emiéle em outubro 17, 2004 12:15 PM
Emiele, essa dos marrões se auto-excluirem é piada. No meu tempo bastava ter fama de marrão, mesmo que não se passasse nem 5 minutos por dia a estudar fora das aulas, para merecer o epíteto e o tratamento.
O Luis tem toda a razão. Existe em Portugal uma cultura que repele a inteligência e o talento. Os medíocres puxam sistematicamente para baixo todos aqueles que se destacam pelas suas qualidades pessoais.
É uma forma de autodefesa: se os medíocres deixassem que o talento se desenvolvesse livremente rapidamente se veriam submersos por ele. Isto é válido a todos os níveis da sociedade, mas muito em especial a nível das elites porque são os medíocres de elite os que têm mais a perder. São, portanto, eles os que mais determinadamente sabotam quem tem algum talento que os ameace.
Publicado por: Jorge em outubro 17, 2004 03:18 PM
La fora, passa-se exactamente o mesmo, basta ver ler os jornais e ver os filmes. Parece que e normal os Migueis chatearem os Paulos por eles serem muito certinhos e nao fumarem uns charutos.
Publicado por: luis em outubro 17, 2004 05:58 PM
Este lamentar sobre o pretenso definhar das elites, tão apreciado por gente como José Manuel Fernandes, é próprio de quem tem um conceito hierárquico da sociedade: no topo as elites; no fundo a populaça.
TODOS devem ser incentivados a desenvolver ao máximo as suas capacidades. E acredito que todos têm talento suficiente para se destacarem em algo. O discurso que enaltece a existência de elites é profundamente anti-democrático pois leva a que se segregue, no discurso e muitas vezes nas prática, os cidadãos, as crianças, em função das suas capacidades. No limite leva a que havendo falta de recursos estes sejam canalizados para a formação de "elites" em detrimento de um esforço para ajudar a maioria a desenvolver as suas capacidades. No limite a obsessão com "elites" torna credível a pergunta: mas então porque não deixar todas as decisões nas mãos das "elites"? A Democracia serve para alguma coisa? As "elites" não são quem mais e melhor sabe?...
Publicado por: viana em outubro 17, 2004 08:38 PM
Viana, fingir que as elites não existem não nos levará nunca a lado nenhum. As elites existem, e não só existem como são fundamentais porque determinam boa parte da dinâmica de uma sociedade. A falta de compreensão disto foi uma das causas da falência de algumas experiências de socialismo real.
Quanto à tua fé de que "todos têm talento suficiente para se destacarem em algo", enfim, é uma fé. Há quem acredite em Fátima, tu acreditas nisso. A verdade é que as pessoas nascem com capacidades muito diferentes umas das outras, e por isso uma sociedade justa não é uma sociedade em que a igualdade é imposta (longe disso!) mas sim uma sociedade em que todos tenham à partida as mesmas oportunidades para desenvolver e pôr em uso as capacidades que possam ter. E o grande defeito das sociedades capitalistas actuais não são as suas desigualdades sociais, mas sim dois factos: o de o único talento que é verdadeiramente recompensado é o talento para acumular riqueza (os outros só valem em função deste) e o de a quantidade de riqueza que existe à partida determinar quase por completo a capacidade de cada indivíduo para descobrir e explorar as suas capacidades.
Esta diferença entre os que defendem a "igualdade" e os que defendem a igualdade de oportunidades (e, já agora, algum equilíbrio na importância que é dada aos vários talentos) é, aliás, a mais importante cisão ideológica que existe na esquerda.
Publicado por: Jorge em outubro 17, 2004 10:24 PM
Não tenho nenhum problema com as elites, mas já tenho quando apenas se lhes acede pelo lado económico. Não se compra capacidades com dinheiro, mas já se consegue disfarçar muito melhor a sua falta.
Publicado por: Mário em outubro 17, 2004 11:54 PM
Ou ainda...quem sabe não tem poder e quem tem poder não sabe...os problemas que envolvem competência técnica, científica ou cultural são demasiado sérios e não podem ser deixados aos políticos. A colocação dos professores e os túneis em Lisboa mostram bem isto.
Publicado por: Prudêncio em outubro 17, 2004 11:54 PM
Será que nunca viram uma daquelas séries para adolescentes passadas em escolas americanas? O que é que acontece aos "eggheads"? Comparados com "desportistas"?
Tenho um colega (inglês, escrevo isto de Inglaterra) que o filho é mesmo muito bom a matemática, e ele faz o possivel para passar despercebido para não ganhar o rótulo de freak.
De acordo que a inteligência é ostracizada mais em Portugal, mas não dessa maneira. Pura e simplesmente não se encoraja a inteligência: é a cultura do "não inventes", a falta de espaços para quem quer ir mais além, etc...
Publicado por: Jean-Luc em outubro 18, 2004 09:56 AM
Jorge,
Se leres bem o meu comentário, nunca defendi o igualitarismo, a necessidade de homogeneizar seja o que for. Pelo contrário, o que defendo é exactamente o que tu pareces defender: "uma sociedade em que todos tenham à partida as mesmas oportunidades para desenvolver e pôr em uso as capacidades que possam ter", nada mais nada menos. E é claro que isso leva a uma sociedade em que as pessoas teram capacidades muito diferentes. Não tenho nenhum problema com isso.
No entanto reafirmo que uma das possíveis consequências com a obsessão com as "elites" é que "havendo falta de recursos estes sejam canalizados para a formação de "elites" em detrimento de um esforço para ajudar a maioria a desenvolver as suas capacidades". Um dos aspectos onde isso é patente é na exigência de muitos na Direita (JMF é um dos mais vocais) de que as escolas (públicas) devem ter liberdade para escolher os seus alunos. Podes imaginar onde isso iria dar: escolas para elites e escolas para os "remediados". Tens dúvidas para onde iria o investimento e os melhores professores?...
Já agora, uma pergunta pertinente: o que preferem, escolas para sobredotados, ou que quem mostre capacidades especiais as possa desenvolver numa escola normal? Segregação ou tentativa de inclusão (com todos os problemas que pode ter a curto-prazo)?
Para ser sincero, acho que esta discussão deriva mais de um problema psicológico de alguma intelectualidade à qual faz espécie que haja tanta gente que "não lhes dá o devido valor". Eu estou à vontade para falar disso porque passei pelo mesmo. Obviamente que como humanos temos necessidade de reconhecimento social, ainda para mais na fase da adolescência, mas isso nunca deve condicionar quem somos ou o que fazemos. Muitos dos problemas na sociedade e a nível individual derivam exactamente dessa necessidade de "conformar" com o que é espectável socialmente.
Publicado por: viana em outubro 18, 2004 11:28 AM
OK, então entendi-te mal.
Quanto às preferências, sinceramente inclino-me mais para as escolas para sobredotados, pelo menos enquanto experiência. Nós já sabemos o que acontece com o sistema em que crianças sobredotadas são colocadas em escolas normais, onde são uma minoria desprezada, rodeada por putos que são incapazes de os compreender e por isso os tratam abaixo de cão, e onde tantos acabam por entrar em ciclos de exclusão de que é muito difícil sair. As escolas normais não favorecem a inclusão dos miúdos sobredotados na sociedade, bem pelo contrário.
Não sabemos hoje se escolas especiais iriam favorecê-la ou não, e eu acho que é preciso fazer a experiência. Apesar de haver riscos (a consciência de se fazer parte duma elite cria frequentemente entraves à capacidade de empatia que é fundamental para a consciência social), julgo que pode ser uma forma de criar uma socialização mais normal para essa gente e ao mesmo tempo evitar que tantos sobredotados acabem toxicodependentes, anulados ou noutras formas de improdutividade social.
Eu não estou contra a ideia de escolas diferenciadas no abstracto e em teoria. Estou contra essa ideia é da forma que a direita pretende implantá-la na prática: com uma diferenciação em que, removida a camada de eufemismos com que a pílula é dourada, a única coisa que interessa realmente é o poder económico dos papás.
Publicado por: Jorge em outubro 18, 2004 03:43 PM