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outubro 17, 2004

AS POBRES ELITES QUE TEMOS

Muita terra, muito corredor de biblioteca, se tem palmilhado em busca de paliativo para a angústia que assombra a questão do costume: por que fado inelutável parece Portugal condenado à mediocridade?
Que nos falta auto-estima, clamam muitos. Que temos auto-estima a mais e por isso as culpas dos nossos fracassos é sempre de outrem, respondeu Vasco Pulido Valente. Mas há outros arremedos de explicação; as sentenças são mesmo mais que as cabeças: indolência, estupidez congénita, calor a mais, falta de disciplina, efeitos da nossa situação periférica, etc., etc.
Mais ou menos consensual é o "facto" de por cá se trabalhar pouco. A produtividade escasseia, o pessoal só quer é descanso, chegar a horas é mentira. Isto acaba por entroncar num princípio muito querido ao nosso Bagão Félix: os trabalhadores são uns madraços sempre na balda e os empresários formam uma tribo de visionários sempre repleta de grandes ideias para o progresso da Nação. Assim sendo, há que vigiar e castigar severamente os primeiros e encorajar de forma persistente os segundos.
O calcanhar débil desta teoria é a metamorfose que os portugueses sofrem mal atravessam uma fronteira para trabalhar noutras paragens. Aí, transfiguram-se em torres de força, em máquinas infatigáveis que contribuem, entre outros feitos, para fazer do Luxemburgo o país com a produtividade mais elevada da Europa: um quarto da sua mão-de-obra foi importada... de Portugal.

Eu, armado em sociólogo de pacotilha, também tenho a minha teoria: o mal é todo das supostas elites de onde emergem os nossos "empresários". Digo isto depois de quase 20 anos a lidar profissionalmente com dirigentes de empresas de todos os tamanhos e feitios. Claro que há excepções, e muitas; mas a qualidade média do empresário luso é muito má. Trata-se de malta desprovida de visão empresarial que ultrapasse o próximo ano fiscal. Nem é gente burra; passa-se que o caminho mais fácil é sempre o mais popular: aplicar a inteligência em fugas ao fisco, esquemas de inside trading e especulação variada. Em média, são pessoas sem cultura, sem sensibilidade humanista, sem gosto pelo risco. Basta ver quantos dos nossos "gigantes" produzem realmente alguma coisa e quantos fazem fortuna simplesmente a distribuir coisas fabricadas algures na estranja.
E isto não é sintoma observável apenas nas salas de administração de empresas de médio porte. Mesmo em bancos gigantescos, os senhores doutores têm de contratar consultores estrangeiros para decidir que rumo estratégico oferece mais garantias de um futuro próspero e solvente. E muitas empresas de grande dimensão têm ao leme gente do calibre cultural e ético de um Joe Berardo.
Se se derem ao trabalho de ler comunicações do tal congresso "Portugal Positivo", ficarão por certo de boca aberta ante a vacuidade pomposa de muito douto e bem estabelecido orador: repetir chavões e buzzwords na moda é fácil; inovar já é coisa complicada. Querem ler parte do credo de tal organização? "A lei implacável do mercado apura a crise: em horário nobre, e com deleite masoquista, a comunicação social repete diariamente um estendal de escândalos e misérias. O vício seduz mais do que a virtude, a culpa atrai mais audiências do que a desculpa, o crime é prime time e a inocência pé-de-página. É preciso agir." No estilo moralista-bolorento, será difícil fazer melhor.
Assim, não há economia ou mercado que resista.

Publicado por Luis Rainha às outubro 17, 2004 12:08 AM

Comentários

Essa é rigorosamente a minha opinião. Não conheço bem a gestão privada ( mas sempre vai dando para ter uma ideia ) mas conheço um pouco melhor a pública e é exactamente isso que se passa. Uma incompetência enorme conjugada com uma não menor arrogância. Ao tomar posse do cargo, anulam todos os estudos que estão feitos e recomeçam do zero. O que isto é, como causa de desmotivação dos técnicos, pode adivinhar-se. Nos sítios onde as chefias são competentes e dão o exemplo, até se trabalha e bem.

Publicado por: Emiéle em outubro 17, 2004 12:23 PM

Belíssimo texto, Luís. Concordo integralmente com a análise. A teoria que tens também é a que eu tenho.
Hei-de escrever um texto assim dedicado aos nossos senhores professores universitários...

Publicado por: Filipe Moura em outubro 17, 2004 01:11 PM

Eu acho que e tudo uma questao de metodos, e imagino que la fora os patroes sabem "puxar" mais pelos empregados, com mais e melhor controlo. Ou voces pensam que la fora nao ha mandrioes, que eles trabalham por puro prazer?! Alem disso ganha-se mais, havera premios de productividade, etc.

Publicado por: luis em outubro 17, 2004 06:09 PM