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outubro 12, 2004
A ALDEIA ONDE NÃO SE OUVEM OS AVIÕES
Fazendo de conta que não passei uma série de meses mas sim apenas alguns dias sem escrever para o blogue, há um post entre todos que tenho atrasado: é sobre The Village de M. Night Shyamalan, que o Luis Rainha abominou aqui e o Pedro Mexia ali (e aproveito também a boleia do texto de Augusto M. Seabra hoje no Público).
Este é um filme que convida ao comentário, senão mesmo ao delírio interpretativo. Nada de errado nisso, mas também não é selo de qualidade: Dogville tinha o mesmo efeito (e as semelhanças não acabam aqui). Parece-me evidente que há alegoria, e que é alegoria da América. O mesmo acontecia em Signs, filme-gémeo, basta olhar para ao vermelho-branco-azul que pinta a casa cercada pelos extraterrestres (não estou a inventar nada, está no making of). O que me parece mais problemático é a pressa das conclusões: que o filme é liberal, ou conservador, ou moralista, ou...
A marca de Shyamalan parece estar na ambiguidade (outro texto fala disto na blogosfera, está aqui). Onde podemos ver essa marca, essa assinatura? Uma pista óbvia são os cameos do realizador: em Signs ele é o responsável pela morte da mulher do padre (é o lugar da culpa), em The Village é o mero reflexo de um guarda na fronteira entre os mundos. Há ainda cenas onde o ponto de vista da câmara nos diz mais qualquer coisa: repare-se nos vários planos em Signs com a família a ver televisão (a perspectiva é aí a do aparelho, que dá notícias sobre a invasão), ou aqueles do lado de fora das janelas, que estão a ser entaipadas (o ponto de vista é o da ameaça exterior) - o olho da câmara identifica-se com o extraterrestre, o que se torna claro na tacada final de Joaquin Phoenix, quando a imagem cambaleia e recebe na cara/lente/ecrã a água mortífera (água que é aqui o ponto fraco dos vilões e que em Unbreakable o era do herói... isto complica um bocadinho a moral das histórias).
Não sei se em The Village se faz a apologia da utopia escapista ou se pelo contrário ela é denunciada. Mas acho que a mera figuração de um exterior abre o debate (e o filme é feito de caixas dentro de caixas). Esse exterior é aquilo que normalmente não se vê, é um fora-de-campo heterogéneo à ficção da aldeia e do bosque, que a envolve e protege, que a torna possível: é um espaço de produção, facilmente assimilável ao da produção do próprio filme. Tal como para a verosimilhança da ficção dos Anciãos era preciso que não passassem aviões sobre a aldeia, também para um filme de época é preciso escolher os planos onde isso não acontece. Shyamalan é o guarda da fronteira irónico que explica isso mesmo, escondido atrás de um jornal e de um reflexo. Que efeitos terá o remédio no mundo fechado da aldeia? Curará Julius/Joaquin Phoenix e restaurará a harmonia ou funcionará como um veneno a corroer os fundamentos da utopia? Ou será apenas mais um anacronismo cinematográfico, como os relógios de pulso nos épicos de de Mille? The Village, como todos os grandes filmes, fala-nos (entre outras coisas) sobre o próprio cinema.
Publicado por Francisco Frazão às outubro 12, 2004 01:13 AM
Comentários
The Village é um grande filme, mesmo para mim que tenho algumas reservas em relação a trabalhos anteriores de Night Shyamalan.
Publicado por: domingos em outubro 12, 2004 09:54 AM
que saudades, francisco. finally... uma vez mais, concordo com tudo. grande filme.
Publicado por: filipa em outubro 12, 2004 10:06 AM
Mas Framcisco, porque não escreves mais vezes? Grande filme, óptimo texto.
Publicado por: Pedro em outubro 12, 2004 11:28 AM
Com tantas referências para outros textos, posso deixar aqui a referência para o meu no blogue que eu e uns amigos temos sobre cinema? Agradecido:
http://serieb.blogspot.com/2004_09_01_serieb_archive.html#109481003881042403
É que falar deste filme sem o colocar em perspectiva com o restante da obra de Shyamalan é um pouco redutor. Convido à espreitadela.
Publicado por: João André em outubro 12, 2004 01:55 PM
Ainda não vi o filme, mas os comentários que por aí se vão fazendo despertou-me a curiosidade. Tenho de ir vê-lo.
Publicado por: cachucho em outubro 12, 2004 02:24 PM
Correcção ao link indicado acima:
http://serieb.blogspot.com/2004/09/nova-frmula.html
Obrigado.
Publicado por: João André em outubro 12, 2004 04:20 PM