« CULPA SOLTEIRA BUSCA COMPROMISSO A LONGO PRAZO | Entrada | O OUTRO HORROR DE ÁFRICA »

setembro 21, 2004

O NASCIMENTO DE UMA LINGUAGEM?

Podem ler aqui como um grupo de cerca de mil crianças surdas, deixadas quase ao abandono numa escola da Nicarágua, parece ter criado a sua própria linguagem gestual. Desde 1977 que estes miúdos, sem ninguém que lhes ensinasse formalmente qualquer tipo de comunicação por gestos, se dedicaram a criar e fazer evoluir o que parece ser uma linguagem radicalmente nova: "They broke it down into bricks and they ended up with elements that you never see alone with gesture. They could assemble these into an infinite number of elements. They had a language."
Os elementos mais velhos da comunidade, agora trintões, ainda usam versões rudimentares deste idioma gestual, sendo que são os mais novos a introduzir mudanças e aperfeiçoamentos na sua estrutura.
Leiam, que é fascinante. Será desta que descobrimos como é que a nossa espécie se lembrou de começar a falar?

Publicado por Luis Rainha às setembro 21, 2004 03:32 PM

Comentários

Verdadeiramente apaixonante... uma mistura fantástica de um laboratório de estudos sociológicos e de uma máquina do tempo! Ai, se Truffaut vivesse...

Publicado por: Abulafia em setembro 21, 2004 04:01 PM

Consta que essa nova linguagem é muito popular no departamento de informática do Ministério da Educação.

Publicado por: brutus em setembro 21, 2004 04:17 PM

Há um outro case study semelhante em Nova Iorque. Uma nova geração de jovens está a utlizar um dialecto que é uma mistura de inglês com espanhol, o chamado SpanEnglish. A Columbia University há uns tempos estava a considerar criar um novo departamento para estudar esta nova língua em gestação. Não sei se chegaram a ir avante com a ideia ou não.

Publicado por: Luís Aguiar-Conraria em setembro 21, 2004 04:18 PM

Fantástico.

Publicado por: cachucho em setembro 21, 2004 04:41 PM

Um espanto.

Mais aqui:
http://www.msnbc.msn.com/id/6029190/
http://www.economist.co.uk/science/displayStory.cfm?story_id=2441743
http://www.nsf.gov/sbe/nuggets/028/nugget.htm

Publicado por: jcd em setembro 21, 2004 05:44 PM

É realmente fascinante. E faz pensar em outras linguagens criadas em circunstâncias excepcionais, embora «faladas», essas, como as que se originam entre gémeos, com uma gramática coerente, mas inacessível a estranhos.
Tive, uma vez, uma pálida ideia do que isso seria, essa linguagem radicalmente diferente. Certo dia, passando eu com uma das minhas gémeas, perto de uma estátua de um imperador romano, em certa cidade holandesa, ela apontou a estátua e disse:«Caia». Levou bastante tempo até eu compreender. Ela queria dizer: «Que alto!».
A palavra derivava de eu, quando tratava delas em cima da cómoda, lhes dizer: «Não caia!». É isso: uma forma verbal, conjuntiva ainda por cima, acabava transformada em adjectivo.
Bom, as minhas gémeas não desenvolveram uma língua, que já seria a terceira, depois do holandês e do português. Mas eu tive a intuição do que essa língua seria. Perdi, sim, a oportunidade de me doutorar em linguística com uma tese que daria brado. Hoje elas falam correctamente as duas línguas.

Publicado por: fernandovenâncio em setembro 22, 2004 09:55 AM