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setembro 08, 2004
AVENTURAS DA RAPOSA DIALÉCTICA
Depois de uma noite de copos, a raposa foi apanhada na Marginal por uma patrulha da Brigada de Trânsito. Soprou no balão: 1,8 gramas. O agente nem queria acreditar: «A menina andou a abusar da vodca, não andou?» E ela, um olho aberto e outro fechado, com a língua a enrolar-se: «Vod-ca? Mas quais vod-ca? Ele foi vod-ca, ele foi vinho verde, ele foi amêndoa amarga, ele foi Mateus Rosé, ele foi SuperBock Green, ele foi 1920 [lê-se «mil nove e vinte»], ele foi Cutty Sark, ele foi tudo, senhor agente, ele foi tudo». Lá para trás, de Cascais a Carcavelos, somavam-se os toques nos rails, as inversões de marcha sem visibilidade, as ultrapassagens a pisar o traço contínuo, uma ameaça de choque frontal.
«Porquê? Podes dizer-me porquê?», perguntei-lhe na manhã seguinte, à saída da esquadra. Ela, óculos escuros e cara de Guronsan, encolheu os ombros. «Só queria saber o que é isso de ser português, pá, essa coisa da identidade nacional.»
De regresso a Lisboa, fui eu que guiei. E ela, à pendura, pelo sim pelo não, até pôs o cinto.
Publicado por José Mário Silva às setembro 8, 2004 06:25 PM
Comentários
Até a "identidade nacional" está mais perigosa: "passear a cadela" e "chamar pelo Gregório" são actividades que se devem exercitar a butes...
Publicado por: zás!pás! em setembro 8, 2004 08:04 PM