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agosto 25, 2004

UMA PERGUNTA PROVOCATÓRIA

Bem, a pergunta será um pouco provocatória, mas é posta muito a sério. Será que o judaísmo é uma ideologia racista por natureza?
Isto tem uma base, não é atirado para o ar assim sem mais nem menos. É a velha questão do "povo escolhido".
Que é isto de um povo escolhido? Ainda não encontrei nenhum judeu, nem dos laicos, nem dos religiosos, que me conseguisse explicar de forma credível qual a diferença que há entre considerar um povo como escolhido e considerar todos os outros como excluídos. O máximo que conseguem é dizer-me coisas como "não é racismo nem exclusão, porque qualquer pessoa que se converta ao judaísmo passa a pertencer ao povo de israel, independentemente do povo ou raça de origem". Quando lhes tento explicar a fragilidade do argumento, pareço esbarrar numa parede de incompreensão que parece inultrapassável.
Sim, porque o argumento esboroa-se com um sopro. Significa o argumento que as pessoas passam a não ser excluídas automaticamente (a não ser inferiores?) no momento em que se convertem ao judaísmo. OK, mas e se eu, usando o meu livre arbítrio, não me quiser converter ao judaísmo? Estou condenado à discriminação? À exclusão? A ser encarado como um inferior por não pertencer (nem querer pertencer) ao povo escolhido? Que é isto senão uma forma de racismo?
Há por aí algum judeu que consiga finalmente explicar isto? Com pés e cabeça?
É que esta dúvida leva a outra: até que ponto é esta atitude responsável pela atitude assassina que o estado de Israel tem tido ao longo da história e pela incapacidade que a esmagadora maioria dos judeus mostra (não todos, felizmente) de condenar, sem que a condenação seja matizada por uma espécie qualquer de desculpabilização, um estado que ocupa ilegalmente território de outro povo, que foi responsável desde o seu nascimento por limpeza étnica, que chegou mesmo a colocar árabes em campos de concentração, que é recordista mundial (e de muito longe) no número de resoluções da ONU que desrespeitou, que está a construir um muro muito mais vergonhoso do que o muro de Berlim, o qual, apesar de toda a sua carga negativa, nunca procurou anexar território, e que continua ainda hoje em dia a construir e a ampliar colonatos que povoa com os mais fascistas de todos os israelitas, gente para a qual palestiniano bom é palestiniano morto.
Para facilitar o trabalho, devo dizer também que o judaísmo não é inteiramente original em tudo isto: para os muçulmanos, os infiéis (especialmente os que não pertencem a nenhum dos "povos do livro") são tolerados de forma paternalista (no islamismo moderado) ou claramente inferiorizados no islamismo fundamentalista por praticarem normalmente actos contrários à sharia e considerados pecado mortal.
Para o cristianismo, em especial para algumas das suas correntes dominantes, passa-se ou passou-se algo de muito semelhante. Para outros grupos, a xenofobia de origem étnica ou religiosa toma outras formas mas também existe. Mas é raro, em especial nos tempos que correm, que uma estrutura religiosa ou filosófica incorpore de um modo tão claro e fundamental conceitos que têm implicações imediatas na forma de olhar o outro como acontece com o conceito judaico do povo escolhido.
Fico à espera de respostas. Já sei que não faltarão os gritos de anti-semita vindos dos fascistas do costume, mas esses não são mais que lixo. Quero respostas é dos outros, os que ainda vão resistindo a entrar neste tipo de retórica imbecil.
Ainda há alguns, não há?
(Jorge Candeias)

Publicado por José Mário Silva às agosto 25, 2004 01:57 PM

Comentários

O argumento que expõe aqui é muito interessante, até porque se presta a algumas analogias. Por exemplo:
Marx defendia o socialismo e posteriomente o comunismo como estados civilizacionais mais avançados do que o capitalismo.

Pela linha argumentativa do Jorge Candeias posso considerar o marxismo uma ideologia "racista por natureza"? Sim, porque " se eu, usando o meu livre arbítrio, não me quiser converter ao MARXISMO? Estou condenado à discriminação? À exclusão? A ser encarado como um inferior por não pertencer (nem querer pertencer) a um ESTADO COM UM NÌVEL DE DESENVOLVIMENTO CIVIZACIONAL SUPERIOR? (Todos sabemos a incrível pluralidade de opiniões e liberdade de expressão que os países marxistas permitiram ao longo da sua história)

Será que não posso perguntar, ainda segundo a linha de argumentação do Jorge Candeias:
"Que é isto senão uma forma de racismo?"

E não será, segundo a linha de argumentação seguida, lícito perguntar igualmente : "até que ponto é esta atitude responsável pela atitude assassina que OS ESTADOS MARXISTAS TIVERAM ao longo da história e pela incapacidade que a esmagadora maioria dos MARXISTAS mostra (não todos, felizmente) de condenar, sem que a condenação seja matizada por uma espécie qualquer de desculpabilização, ESTADOS que ocupaRAM ilegalmente territórioS de outroS povoS, que foRAM responsávEIS desde o seu nascimento por limpezaS étnicaS, que chegARAM mesmo a colocar MILHÔES DE PESSOAS em campos de concentração?

Como vê, basta mudar umas palavras, para se perceber os caminhos tortuosos a que esta linha de argumentação pode levar.


Publicado por: Nuno Guilherme Costa em agosto 25, 2004 02:45 PM

Jorge: já não há.

Publicado por: Paulo em agosto 25, 2004 03:14 PM

Nuno,
Não me parece que essa exclusão dos outros seja um traço do marxismo; afirmar que o socialismo será um dos "estados civilizacionais mais avançados do que o capitalismo" não implica, de forma alguma, que quem viva em paragens capitalistas seja "inferior". Estas pessoas só terão o azar de não usufruir das delícias mil do Socialismo!
Não é de todo a mesma coisa.
Excluir da Graça de Deus qualquer um que não faça parte dos "nossos" é efectivamente um traço do Judaísmo, mas também do Catolicismo: ainda há pouco foi reafirmado pela Santa Sé que o único caminho para a Salvação é Jesus Cristo....

Publicado por: Luis Rainha em agosto 25, 2004 04:02 PM


"Dos dois povos até então inimigos, Deus fez um só, pois ele [Cristo] é a nossa paz.Tendo derrubado o muro de separação e suprimido em sua carne a inimizade"

Epístola de São Paulo aos Efésios

Graças a Deus

Oremos Irmãos:

pelo povo eleito

pelos irmãos em cristo

pelos filhos de Ismael

e pelo Luís Rainha que já cá vai fazendo muita falta.

Publicado por: gibel em agosto 25, 2004 04:31 PM

"Pois é APENAS pela Igreja Católica de Cristo, que é o socorro universal para a salvação, que a plenitude dos meios de salvação podem ser obtidas"
Segundo Decreto do Concílio do Vaticano sobre Ecumenismo

Enquanto essas promessas divinas se circunscrevem ao plano do "outro mundo", a coisa vai bem. Pior é quando uma religião se sabe proprietária de uma "Terra Prometida"; aí, coitado de quem se deixar apanhar em tais terrenos!

Publicado por: Luis Rainha em agosto 25, 2004 04:55 PM

O Nuno levanta um ponto muito válido. É que, embora o Luis tenha razão quando diz que a exclusão não é intrínseca ao marxismo, pois não faz parte das suas permissas e pressupostos, a verdade é que aconteceu e com uma certa frequência. É uma das contradições que o marxismo (e o socialismo e o comunismo) sofreram quando da teoria se passou à prática, e parece-me que tem sido muito menos debatida do que devia ser.

O Luis tem razão pelo seguinte: chamar ao socialismo um estádio civilizacional mais avançado que o capitalismo não tem qualquer implicação a nível individual. É a sociedade como um todo que é mais avançada, não necessariamente os indivíduos que são melhores. Até o "homem novo" é uma consequência teórica da sociedade. Se é verdade que a ideia pressupõe o surgimento de um homem superior, prestando-se assim à analogia, não é menos verdade que esse "homem novo" não é automático (se bem me lembro, só era suposto atingir-se o homem novo no comunismo, ou seja, na Utopia): uma sociedade socialista seria composta durante muito tempo por "homens velhos", iguais a todos os outros. A diferença relativamente ao "povo escolhido" do judaísmo parece-me bastante grande.

Que este conceito tenha sido muito deturpado no "socialismo real" é capaz de ter sido uma boa parte da origem dos crimes do "socialismo real". O que nos leva de regresso à minha pergunta provocatória.

Quanto ao que o Luis diz sobre a exclusão da Graça de Deus, é completa verdade. A história da graça de deus é omnipresente nas três grandes religiões monoteístas, e há sempre uma espécie qualquer de paraíso associado a ela. Mas geralmente esse paraíso é de natureza transcendental; no judaísmo não é, ou pelo menos não completamente. E esta diferença parece-me importante pelas implicações que tem nas relações entre as pessoas e entre as pessoas e o território.

Publicado por: Jorge em agosto 25, 2004 05:04 PM

Por incrível que pareça, pode haver judeus ateus e que continuem a considerar-se judeus, a festejar as festas judias, a partilharem a cultura yiddish, por exemplo, a memória da resistência, etc.. Portanto, para estes, essas perguntas não têm sentido.

Além disso, os preconceitos racistas que misturam tudo (religião com raça com género, etc.) e as tolices são moeda corrente. Ora vejam, respigado do "Le Monde", edição de 21 de Agosto de 2004, numa notícia sobre "as novas ameaças terroristas":

« Les services occidentaux possèdent, par exemple, des informations indiquant que des groupes activistes tentent d'enrôler des membres de 'type chrétien' et des femmes, moins suspects que des Arabes aux yeux de la police ».

Como se não houvesse cristãos árabes e árabes cristãos, como se as mulheres não fossem árabes. Dir-se-á que foi por engano. Engano?

Publicado por: manel em agosto 25, 2004 06:43 PM

Os Muçulmanos não aceitam as outras religiões como iguais à sua. Toleram-nas, mas estão no patamar abaixo!

Publicado por: Serapitola em agosto 25, 2004 06:54 PM

Meus Senhores

O Processo Luis Rainha / Filipe Moura entrou no Tribunal do Santo Ofício da RIAPA

Inquisidor-MOR : Santo-La

Acusação: Anti-Semitismo no BdE

Ministério Publico: Ana Albergaria
Defesa: Jorge Palinhos

Juiz Presidente: Comandante Guélas

Publicado por: Santola em agosto 25, 2004 07:20 PM

Qualquer religião tem um carácter exclusivo. Porque uma religião é sempre um dogma.
O Jorge Candeias tem toneladas de razão no que escreve. Digo mais: é o primeiro post que aqui vejo com cabeça, tronco e membros (sem pretender desconsiderar quem quer que seja) sobre a questão.
Apesar dos monstruosos disparates que Israel tem cometido, é preciso, também, admitir que os judeus têm sido -- e são --, eles próprios, vítimas dos métodos que utilizam para com os palestinos. Também eles têm sido -- e ainda são -- excluídos. O que não serve, de forma alguma, para os desculpar. Mas, para mim, serve para os compreender, ainda que não aceite o que acontece na Palestina. Tal como a violência que eles exercem sobre os palestinos me leva a compreender que o segundos pretendam -- é o que pretendem realmente -- a aniquilição do estado de Israel.
Parece-me que esta questão continua a ser abordada duma forma que resulta sempre num diálogo de surdos. Daí o que se passa na Palestina. E a forma como tem sido debatida, neste e noutros blogues, só tem servido para extremar posições.
Para mim, a verdade é esta: entre árabes (palestinos, o que quiserem chamar-lhe) e judeus, venha o 'diabo e escolha'. Por enquanto, e até provas concretas em contrário, são povos (religiões?) mutuamente exclusivos.
Digo mais uma vez: o post do Jorge Candeias é o PRIMEIRO, que até hoje li num blogue, realmente inteligente sobre o assunto.

Publicado por: zt em agosto 25, 2004 10:13 PM

Manel, vi noutro comentário que és judeu e pegando no teu comentário deixado aqui, aproveito para perguntar-te: como encaram os judeus ateus o conceito do povo eleito? Renegam-no como parte de uma religião que não aceitam, ou continuam a aceitá-lo (de algum modo) ou a conviver com ele (ainda que em convivência difícil) como parte da sua cultura nacional?

Publicado por: Jorge em agosto 26, 2004 04:12 PM