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agosto 19, 2004
NÃO TENHO VIDA PARA ISTO (1)
Tudo começou quando reparei na seguinte frase, presente no "Acidental" : "Este traço anti-semita que está nos genes da esquerda jamais deixará de me arrepiar." Isto não é um pensamento, não é sequer um disparate: é um insulto escarrado sobre quem ousa não pensar como o autor deste post, Pedro Marques Lopes.
De seguida, porque já não era a primeira destas generalizações que por ali topava, dediquei-me a elencar uma dúzia delas. Chamei ao resultado "Como definir a Esquerda numa dúzia de penadas Acidentais". E escrevi logo de imediato uma explicação, não fosse a coisa ficar carente de sentido. A páginas tantas, perguntei "Alguém me explica como é que a vontade de qualificar e depreciar o adversário se transforma numa obsessão deste calibre?" e deu-me para matutar numa questão algo simétrica: "Posso estar enganado, mas nunca me deparei com um caso clínico destes no lado de ‘cá’..."
Feito isto, congeminei a malfadada ideia: provar, recorrendo apenas a exemplos colhidos na blogosfera, que é um disparate rematado seguir pelo acidental caminho de reduzir a "Esquerda" ou a "Direita" a categorias homogéneas, como se todos "nós" sentíssemos uma obrigação imparável de venerar S. Estaline ou todos os cidadãos de direita não conseguissem deixar passar um dia sem pontapear um proletário.
Assim, qualifiquei, de forma assumidamente simplista e levezinha, alguns tipos de direita que lobrigo neste nosso pequeno mundo virtual, começando por blogues de que gosto muito e acabando em 3 de que não gosto nem um pouco. Finalizei com a constatação de que, afinal, as prometidas "três penadas" de exemplos não bastavam; nem mesmo uma dúzia. E fingi a surpresa: "Mas como é que eles (os Acidentais) conseguem ser tão concisos e decididos?" Julguei ter deixado clara a minha ideia: não vale a pena querer abarcar realidades e posturas tão díspares sob uma só categoria, seja ela "direita" ou "esquerda".
O que me havia de lembrar de fazer!
Fui de imediato acusado de fazer o preciso inverso do que almejava: "Achar que os que são como nós são os bons e depois há os outros"; ver o mundo a "preto-ou-branco"; fazer uma "colecção de cromos" que seria "boa para brilhar no bairro" mas incapaz de alcançar o "mundo" (local que suponho sob o brilhante domínio de tão arguto comentador).
Mas o pior ainda aí vinha a caminho. O autor do "Ma-schamba" ofendeu-se mortalmente por ser definido como sendo de direita e, mais a mais, por estar no mesmo "saco" de um fascista. No entanto, a minha classificação é tão somente o que parece: uma opinião. Uma opinião nascida da leitura desse blogue e de frases como "Sempre me irritou a auto-imagem (reconfortante) da superioridade da esquerda (até quando me pensava como sendo de esquerda)". Não me arrependo de ter emitido essa opinião e não me passa pela cabeça que algo tão exposto e público como um blogue possa estar, por uma qualquer alforria divina, imune a opiniões alheias.
Quanto à história dos "sacos", é logo o mesmo blogger que corre a enfiar-me na companhia de defensores da "miséria terrorista" e praticantes de "solidariedades criminosas", entre outras peças pouco recomendáveis; pondo em prática uma noção muito pessoal de coerência, por certo. E não esqueçamos que tudo isto era uma resposta – que se pretendia meio brincalhona – a textos que remetiam toda a esquerda sem excepção para o abismo dos estalinistas, anti-semitas, jacobinos, machistas, etc.
Depois, os ataques corrigiram um pouco o rumo: eu teria apontado algumas qualidades aos blogues por mim "considerados *de direita*: ‘nós’ somos a esquerda, os bons; os outros são a ‘direita’ que, apesar de nitidamente inferiores, até conseguem ter algumas qualidades..."
Que eu tenha repudiado tais acusações, afirmando "no meu texto, onde lobriga essa ideia de nós sermos os ‘bons’? E isso do ‘nitidamente inferiores’ é mera e total invenção sua: a nada no post pode ser atribuída semelhante intenção, muito antes pelo contrário!", pouco efeito causou; logo surgiu mais um comentário no mesmo comprimento de onda: "Pois, JV já o referiu, elogios apesar de...V. recusa que isso esteja presente no seu pensamento. Que fazer, se é V. que o diz. Agora que parece óbvio, parece. Alguns de direita têm qualidades, ‘apesar de direita’". (Brilhante exercício de telepatia a pretender ler, não o que escrevi, mas sim o que me ia na alma.) Parece-me que isto é uma invenção descarada, face ao que se pode ler nos posts em questão. E, aliás, já deu para perceber que alguns dos visados se limitaram a acusar a recepção dos elogios, sem ali vislumbrarem torpes – e "óbvios" - menosprezos ou taxinomias ofensivas.
Porra. Afinal, onde está o escondido "apesar de", quando digo que um blogue é "inteligente e elegante" ou "interessante e plural" ou "distante mas atento"?
Eu respondo: em parte alguma excepto na mioleira desconfiada de quem não consegue ver os outros a não ser como espelhos das suas próprias maleitas.
Publicado por Luis Rainha às agosto 19, 2004 03:44 PM
Comentários
Pá, aquela máxima do "quem não é por nós é contra nós" não te lembra nada? De facto, há coisas com que não vale a pena perder tempo. Olha se os ambientalistas conseguiam salvar os dinossauros da extinção... távamos tramados pá. Deixa-os seguir até serem apenas uma memória.
Não vale mesmo a pena perder tempo com isso.
Tantas miúdas lindíssimas por aí, e um gajo agarrado ao teclado... bailhanusdeuze...
Publicado por: Animal em agosto 19, 2004 04:11 PM
Ó Animal, é impressão minha ou tu próprio também estás agarrado ao teclado?
Publicado por: Jorge em agosto 19, 2004 04:38 PM
"E não esqueçamos que tudo isto era uma resposta – que se pretendia meio brincalhona – a textos que remetiam toda a esquerda sem excepção para o abismo dos estalinistas, anti-semitas, jacobinos, machistas, etc." - como imbecilidades dessas nunca V. leu escritas por mim (outras decerto) acho de bom tom não me misturar nesse tipo de querelas.
"Sempre me irritou a auto-imagem (reconfortante) da superioridade da esquerda (até quando me pensava como sendo de esquerda)". - compreendo que ao ler isto presuma que estou pendurado no ramo do lado. Mas labora em erro, basta não ler linear. Mas leitura de blog é rápida. Mas para a usar conviria ler devagar.
[já agora V. cita um texto em qeu eu defendo o inceremento da solidariedade internacional, da ajuda publica ao desenvolivmento, que tradicionalmente é uma causa querida a esquerda. e em que protesto citando um execrável exemplo do patrimonialismo socialista em portugal, e sua continuidade - entender isso como uma auto-definição de direita é um absurdo radical. Ou mero preconceito]
Quanto aos sacos já os retirei em comentário anterior. Sinceramente sempre pensei este blogue como muito ligado ao BE, militantemente ligado (o que não é desprimor, é actividade). Ao BE considero-o um desprezível movimento de cariz anti-democrático, e repito tudo o que disse e V. cita. Sou de direita por isso? Somos o que pensamos e somos os que os outros pensam. Apenas acho válido, e disse-o, usar direita/Esquerda. Mas quais os critérios (V. nada diz, talvez porque não tenha vida para isso). Porquê aceitar a UDP e vituperar os neo-fascistas? São critérios. Porquê chamar esquerda a quem pactua(ou) com terríveis e antiprogressistas regimes políticos e chamar direita a outros? Eu chamo a isso cromos. V. lê o ma-schamba: eu postei há meses que quem diz que Saddam é democrata não deve ter direitos políticos em Portugal (falava de Ilda Figueiredo). Sou de direita por isso? Ou apoio alguma invasão por isso? [que raio Saddam era um assassino, abateu os próprios comunistas do país e a mulher considera-o um democrata. Imbecilidade, desonestidade, e democratofobia. A constituição aceita isso? à imbecilidade aceita, ao fascismo não! Não é aquilo uma forma particular a que muitos simplificam como "fascista"?] A ETA é a Eta, Louçã arranjar uma retórica (historicamente frágil) para a contextualizar, para matizar a condenação, incapaz de romper com as velhas solidariedades da "extrema-esquerda". Eu acho execrável e fora do sistema democrático. Sou de direita por isso? Estou a presumir o que V, considera de direita (dado que não o explicita): eu acho que a direita mais conservadora e totalitária, mais criminosa e assassina tem esses nomes. Porque acha V. que devo aceitar chamar-lhe esquerda? Por causa dos charros livres? De meia dúzia de símbolos agitados ao vento? É isso a política, é isso o projectar, o pensar?
Se alguém me metesse num qualquer concurso floral sobre a esquerda teria eu ficado tão irritado? Depende do autor. E aqui irritei-me porque presumi um militante do BE (movimento que eu abomino, intelectual e moralmente) a fixar-me num local qualquer segundo critérios derivados de uma ideologia nojenta, totalitária, fascista.
Agora meto a viola no saco. Porque V. protesta, não pertence a esse saco. Há-de desculpar-me, que cá de longe vou confundindo personagens daí. Não estou totalmente actualizado. Lamento o erro, e até a irritação que a minha associação provocou.
Quanto sua à ironia sobre o mundo onde eu comento. Pobres comentários decerto. Mas no mundo mesmo. E pasmado com tanto bairro por aí, tantas certezas, tantos cromos. Na "esquerda" e na "direita". In-blog, out-blog. Talvez porque a distância dê um sentido do ridiculo e da pobreza de espírito que a participação não dá.
Para mim morre isto aqui. Passe muito bem que eu também não tenho vida para isto.
Publicado por: jpt em agosto 19, 2004 04:38 PM
Bom, o jpt até pode escrever muito bem, nunca lhe li o blogue. Mas a verdade é que a vontade que eu teria depois do elogio do Luís Rainha desapareceu com os comentários que ele para aqui deixou.
Que ele não goste de ser encarado como de direita tudo bem, também eu não gosto de ser encarado como de extrema-esquerda (e não falta quem o pense), mas devem-se aceitar as opiniões dos outros, chama-se a isso capacidade de encaixe. O senhor jpt parece não ter muita.
Curioso também que ele fale de leituras rápidas e pouco profundas (a citação exacta é: «Mas leitura de blog é rápida. Mas para a usar conviria ler devagar») no que se refere ao seu blogue. O azar é que foi isso que admitiu fazer em relação ao BdE (num outro comentário) e disse que só por causa de o BdE ter estas letras, ele o associou ao BE imediatamente e sem concessões. É um caso de "faz o que eu digo, não faças o que eu faço".
Quanto ao resto, temos de respeitar a opinião dele mas ele não respeita a dos outros ao dizer que imaginava o LR como um «militante do BE (movimento que eu abomino, intelectual e moralmente)». Ou dizer que Ilda Figueiredo «não deve ter direitos políticos em Portugal» porque entendia que Saddam era um democrata. A verdade é que seria a opinião dela. Talvez ingénua, não me admiraria, mas em Portugal ainda há direito à opinião. O que é proibido é o direito à associação e reunião e ostentação de símbolos fascistas.
Por outra, o senhor jpt pareceu cair um pouco nos pecados de que acusa o BE e os comunistas. Acredito que seja apenas por causa da emoção, uma vez que o LR lhe elogiou o blogue e confio que ele não o faria com um blogue autoritário.
Seja como for, como disse, não irei agora ao blogue. Fico apenas contente por ele ter pedido desculpas por algumas das coisas que disse. Pessoalmente não acredito que tenham sido realmente sentidas, mas é melhor que nada.
Publicado por: João André em agosto 19, 2004 05:49 PM
O João André disse tudo.
Subscrevo por baixo.
E não comento mais nada, porque parece-me a mim que anda aqui testosterona a mais. Aqui e noutos mares...
Publicado por: cachucho em agosto 19, 2004 09:37 PM
Bota lá mais uma categoria nos bichos da Direita. Os que só querem comer e cascar em metade do Executivo. Não é por ser de Direita que não se pode dar razão a muita esquerda que pensa mais e melhor... Não somos todos bácoros do calibre dum Isaltino, ainda há quem seja meio pastor rude com cajado pesado, e que se escandalise com os interesses instalados. Que de Direita não têm coisissima nenhuma, a começar pelas maneiras à mesa...
Cumprimentos de Direita, e vai lá às gajas que o teclado fica onde o deixaste ;-)
Publicado por: Toni dos Bifes em agosto 20, 2004 01:55 PM