« COMO DEFINIR A DIREITA EM TRÊS PENADAS | Entrada | COMBATE AOS PROBLEMAS SOCIAIS »
agosto 18, 2004
DA NATUREZA DA LÍNGUA
Na passada semana, o João Miranda dedicou-se a tentar definir o que é natural e artificial. Longe de enveredar pela teorização filosófico-biológica, o João concentrou-se em exemplos concretos. Desses exemplos, depreendeu-se que para o blasfemo o que é natural e "bom" é o que evolui “naturalmente”, isto é, sem intervenção racional, enquanto que "mau" e artificial é o que é desenvolvido e planeado racionalmente.
Os fundamentos desta posição são claramente teológicos, pelo que não me vou pronunciar sobre eles. São teológicos na medida em que se sustentam na pressuposição que a evolução das sociedades é em si boa e não deve ser condicionada racionalmente (por outras palavras, pelo estado), pois não pode ser apreendida racionalmente. Ou seja, diz-se que a evolução social transcende a razão, e logo pertence ao domínio da metafísica, e fazem-se juízos de valor sobre essa evolução, pelo que se deduz que existe um padrão moral inerente a essa evolução. Numa palavra: teologia.
E não adianta falar de Darwin. Darwin nunca disse que a evolução era boa: limitou-se a constatar que ela existia.
De facto, temos casos de evolução natural cuja benevolência é menos que dúbia. Será que a evolução natural dos dinossáurios para a extinção foi boa para os próprios? (Isto, claro, se assumirmos que os dinossáurios não tinham estado centralizado; crença que julgo ser partilhada por todos, menos pelos patuscos new agers que os consideram uma civilização superior.) E que dizer das tribos da Ilha da Páscoa, cuja evolução natural foi abaterem até à extinção todas as árvores da ilha que lhes forneciam comida e habitação, e cuja consequência também natural foi as próprias tribos extinguirem-se. Será que estas infelizes tribos não teriam gostado muito de uma interferência racional que artificialmente mudasse a evolução natural?
Entre os vários exemplos que o João dá, interessou-me o da linguagem. A propósito destas, o liberal dos posts curtos indicou uma série de pressupostos que, não sendo falsos, não dizem toda a verdade, e que vou tentar complementar.
O João afirma que a linguagem como factor competitivo é o que leva ao seu desenvolvimento. Isso é verosímil, mas dentro da própria linguagem, isto é, dentro do próprio grupo. Senão, qual a vantagem de uma língua ser gramaticalmente mais complexa que outra totalmente diferente? Ou seja, a competição apenas funciona como elemento diferenciador dentro de um grupo e não entre grupos? Bem, isto na teoria, pois a prática, parece-me ser diferente, como direi à frente.
Por outro lado, isso implicaria que as línguas caminhariam progressivamente para complexificação. O que não é verdade. De facto, quem souber latim ou grego antigo, quem ler textos medievais, dirá imediatamente que as línguas actuais são formalmente mais simples que as antigas, com recurso a uma estrutura frásica rígida, períodos curtos, ortografia uniformizada.
Ao mesmo tempo, essa sofisticação serve para quê, exactamente? Normalmente são os estilos eruditos que recorrem mais às potencialidades da língua. Mas são também esses estilos eruditos e inovadores que têm menos sucesso em termos de divulgação. É a linguagem simples que permite passar a mensagem e convence o receptor, não é o recurso a zeugmas, pretéritos-mais-que-perfeitos, etc.. Senão, porque é que a literatura barroca não é a mais popular de todas?
Por outro lado, se a língua é esse código grupal exclusivo que o João parece crer que é, porque é que as culturas investem tanto na sua divulgação? Porque é que os Estados inglês, francês, português gastam tanto dinheiro em Alliances Françaises, British Councils, Institutos Camões para promover o vernáculo no estrangeiro? Porque é que a prática de todos os impérios é incentivar os povos conquistados a aprender a sua língua? Não deviam ter antes a atitude de a esconder invejosamente para impedir que estranhos a aprendam? E porque é que todos os guias turísticos recomendam que quando se visita um país se aprendam umas palavrinhas da língua nacional, pois os indígenas gostam de as ouvir? Não devia ser o contrário? Não deviam os nativos ficar assustados por um estranho lhes conhecer o código secreto?
Por outro lado, o lado cooperativo da língua é significativo. A linguagem, em si, tem como primordial objectivo a cooperação. Mais, tem como principal objectivo a cooperação entre diferentes. As línguas são forçadas a evoluir e a expandir-se quando têm de encaixar perspectivas da realidade e experiências de vida diversas. Em grupos restritos a linguagem não precisa de grande sofisticação pois os seus elementos têm de lidar com as mesmas situações e têm experiências similares – veja-se que cada um de nós, com amigos próximos e familiares, muitas vezes não precisa mais do que monossílabos, grunhidos ou mesmo silêncios para se fazer entender – é na presença de desconhecidos, do outro, que somos forçados a usar todos os artifícios da linguagem para nos fazermos compreender. Como diz o ditado popular: “Para bom entendedor…” Repare-se que as línguas isoladas, como o inglês, são mais rudimentares gramaticalmente, ao passo que as línguas que abrangem uma diversidade cultural e geográfica muito grande, como as línguas continentais, apresentam maior complexidade.
O João faz grande alarde da vantagem competitiva da língua como forma de sobrevivência e vantagem reprodutiva. Bem, nenhum contexto de sobrevivência é explicado no post do blasfemo. Mas eu pergunto: num contexto primitivo, entre uma tribo com competências linguísticas, outra tribo com competências de corrida que lhe permitem fugir do perigo e ainda outra tribo com superior capacidade de luta que lhe permitem enfrentá-lo, qual a que teria maiores hipóteses de sobrevivência?
A história diz-nos que foi a primeira, visto que a espécie com competências linguísticas mais desenvolvidas, o homo sapiens sapiens, extinguiu outras menos competentes, como o neandertal europeu ou o homo erectus asiático.
E porquê? A única vantagem em termos de sobrevivência da língua sobre a força ou a velocidade é a capacidade de cooperação, de o grupo organizar acções concertadas, dirigidas e racionais. Enfim, a capacidade de conciliar racionalmente interesses individuais e colectivos e dirigi-los de uma forma racional e organizada. Parece que a linguagem configurava já, glup, o estado centralizado!
Também a questão do sucesso sexual pela capacidade retórica, mesmo não sendo totalmente errado, me parece um tanto inflacionado. Desse ponto de vista, entre modelos, actores, políticos e escritores, o grupo profissional com mais tracinho na pistola devia ser o último, o que não me parece ser o caso. Dou para tanto os auto-exemplos vivos da Adília Lopes e do Pedro Mexia.
A propósito há uma história reveladora: intrigado com o sucesso entre as damas do seu amigo H.G. Wells, um homem baixote, gorducho e pouco atraente, Somerset Maugham inquiriu a uma das suas amantes a razão de tal atracção. Seria o talento literário? O sentido de humor? A erudição? Não, respondeu simplesmente a senhora, é porque o corpo dele cheira a mel.
Publicado por Jorge Palinhos às agosto 18, 2004 01:26 PM
Comentários
E...?
Publicado por: Acolito Espirita em agosto 18, 2004 03:05 PM
Caro Jorge
Relativamente ao princípio deste post. Posso inferir que todo o juízo de valor sobre uma dada sociedade é teologia?
PS.: Escusado será dizer que eu acho que sim.
:)
Publicado por: timshel em agosto 18, 2004 04:13 PM
Timshell:
Não é essa a questão. O que eu digo é que atribuir a uma entidade que transcende a razão os destinos da sociedade e considerar que a acção dessa entidade é necessariamente benéfica é uma atitude teológica.
Eu acho que uma sociedade pode ser julgada de muitas perspectivas, incluindo a teológica.
Tubarão:
Se pagares faço-te uma versão deste post em pinturas rupestres.
Publicado por: Jorge em agosto 18, 2004 04:21 PM
Sem recorrer à metafísica da ética social quais as outras perspectivas pelas quais se pode julgar a sociedade?
Perspectivas utilitárias?
E utilitárias relativamente a quem?
E quando deixar de ser útil, é tudo permitido?
Publicado por: timshel em agosto 18, 2004 05:59 PM
"A história diz-nos que foi a primeira, visto que a espécie com competências linguísticas mais desenvolvidas, o homo sapiens sapiens, extinguiu outras menos competentes, como o neandertal europeu ou o homo erectus asiático."
Cuidado com essa acepção, não é uma verdade inquestionável, nem sequer universalmente aceite no meio académico.
Publicado por: Tiago em agosto 18, 2004 07:39 PM
Que o homo sapiens sapiens tenha extinguido outras espécies, como o neandertal europeu ou o homo erectus asiático, queria eu dizer.
Publicado por: Tiago em agosto 18, 2004 07:42 PM
T~em uma versão "light" deste post?
Publicado por: Povd em agosto 18, 2004 09:04 PM
Este "artigo", além de curto e sucinto é despretencioso.
Publicado por: Anhuca em agosto 19, 2004 12:11 AM
Onde é que está o debate sobre o próprio conteúdo do post? Raio de silly season...
Publicado por: Tiago em agosto 19, 2004 12:14 AM
Gastar saliva com estes trogloditas, Jorge? Porra. preparemos os pelotões de fuzilamento (simbólicos, é claro, pois tudo são símbolos, chega-me aí um cigarro e viva o Trapattonni, ou coisa do género)
Publicado por: manel em agosto 19, 2004 12:56 AM
Tiago:
Correcto. Foi uma forma de dizer que a linguagem deu ao sapiens uma superioridade em relação às outras espécies que lhe permitiu sobreviver. Provavelmente não foi forma mais correcta de o dizer.
Timshell:
Julgo que estás a perguntar (retoricamente) se uma sociedade não deve ser sempre avaliada segundo os seus princípios morais. Parece-me que isso depende da fonte dos seus princípios. Se estes forem de inspiração religiosa, sim, cabe à teologia julgar; se foram da ordem material, do sucesso individual ou outra, já está mais na onda da economia, antropologia, etc..
Se tentas dizer que os princípios éticos de origem religiosa são superiores aos outros, bem, isso é assunto de tese de doutoramento ou, no mínimo, de post, nunca de comentários do blog.
Povd:
Versão very light do post: a língua é uma tecnologia de cooperação e não de competição.
Tubarão:
A minha sincera tristeza por ainda não teres resolvido o problema da dislexia.
Publicado por: Jorge em agosto 19, 2004 10:04 AM
Muito obrigado pela versão verylight ou, como lhe chamam os americanos, versão Cliff´s Notes.
Publicado por: Povd em agosto 19, 2004 12:27 PM
Olá Tubarão,
Fico contente por saber que tens seres na vizinhança com quem consegues manter uma vida social.
Publicado por: Jorge em agosto 19, 2004 02:56 PM
Eu pessoalmente ponho em causa o argumento no seu todo, Jorge. Porque não é "crystal-clear" para mim que a linguagem representasse uma vantagem assim tão determinante. Penso sempre em outras possibilidades, como as mudanças climáticas (evolução tendencial para um clima mais ameno, com o "fim" das glaciações) ou, até mesmo, porque não?, algo similar aos conquistadores espanhóis, com a introdução da gripe, vírus para o qual as populações pré-existentes pura e simplesmente não tinham defesas imunológicas.
Mas, como eu próprio comecei por dizer, essa questão está longe de ser consensual. Esta é apenas a minha visão. Fora isso, parabéns pelo post, bem fundamentado e a abrir perspectivas muito interessantes de debate!
Publicado por: Tiago em agosto 19, 2004 03:44 PM
Certo, Tiago, a minha hipótese não é comprovada, como quase tudo na pré-história. Mas sabendo-se que os Neandertais eram mais robustos e com capacidade craniana igual ou superior ao Cro-Magnon, mas sendo a configuração do seu rosto pouco adequada à linguagem, parece-me que é uma hipótese plausível.
Publicado por: Jorge em agosto 20, 2004 09:47 AM