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agosto 18, 2004
COMO DEFINIR A DIREITA EM TRÊS PENADAS
Há a direita inteligente e elegante.
Há a direita fresca e gira.
Há a direita culta e influente, mas tão aborrecida.
Há a direita interessante e plural.
Há a direita distante mas alerta.
Há a direita divertida.
Há a direita epicurista.
Há a direita irritante mas coerente.
Há a direita taxinomista, viciada em rótulos.
Há a direita com um ligeiro atraso.
Há a direita declaradamente mentecapta.
Há a direita cavernícola e a pedir lobotomias urgentes.
Merda. Isto, afinal, é mais difícil do que parecia. Prometi "três penadas", já vou na dúzia. E fiquei-me por alguns blogues que de quando em vez visito. Nem sequer cheguei a sair para o mundo real.
Mas como é que eles conseguem ser tão concisos e decididos?
Publicado por Luis Rainha às agosto 18, 2004 12:44 PM
Comentários
Nós, os outros e o Muro
Esta mania de querer rotular tudo e todos como de esquerda ou de direita é no mínimo infantil... em 1º lugar porque, com poucas excepções, as coisas não são do tipo preto-ou-branco: não só existem muitos tons de cinzento, como um olho "normal" pode distinguir cerca de 18.000.000 de cores diferentes. Em 2º lugar, achar que os que são como nós são os bons e depois há os outros, além de infantil é perigoso: temos tantas certezas da "nossa" razão que com demasiada facilidade (e basta olhar para a história + ou - recente) somos tentados a não olhar a meios para atingir os fins. Por último, não seria bem mais construtivo tentar encontrar qualidades nos "outros" e defeitos em nós próprios? ou como alguém disse, construir pontes em vez de muros?
E por falar em muros, não me lembro de ter visto qualquer referência neste blog ao início da construção de um dos muros mais (tristemente) famosos de todos os tempos: o de Berlim, esse enorme monumento à estupidez humana. Fez há poucos dias 43 anos...
Publicado por: JotaVê em agosto 18, 2004 03:06 PM
Sabe, é a 2ª vez na vida que me consideram de direita. O que não o prova mentira, apenas sublinha a minha supresa. Irritam-me as taxonomias, na minha profissão chamaram-lhe "coleccionadores de borboletas". Mas não nego que a metáfora direita/esquerda serve para descrever. Do conteúdo simbólico de cada lado sabe cada um dos utentes dos post-it.
Ainda que um post não magoe, e que este seja apenas descritivo, acho ofensivo que alguém, que nem conheço, me meta num saco onde está um declarado fascista. É ofensivo e é denotativo de quem escreve. Para mim o mundo não é preto/branco
(cont)
Publicado por: jpt em agosto 18, 2004 03:13 PM
Saiba pois, que se me servisse para algo andar a agitar cromos "direita" e cromos "esquerda" veria os movimentos histórica e intelectualmente de inspiração trotskista e estalinista mais próximos daquilo a que V. chama direita do que eu próprio na minha santa paz distante.
Nada me encanta na retórica BE (não falo do BdE, raro vir cá, hoje via tracking). E não me fico espantado nas delícias aparentes dos bens falantes esquecendo a sua matriz. Por isso decerto sou, para si, de direita.
Talvez por ser ateu não tenho queda para o perdão. Daí que me repugna, moral e intelectualmente, quem defenda (por via de matizadas contextualizações) a miséria terrorista. Por isso me repugna o Prof Louçã. E quem ele marcha. Deve ser essa a minha direita. A que despreza as vossas solidariedades criminosas. E as vossas burguesices fracturantes.
Fique-se V com a sua colecção de cromos. Boa para brilhar no bairro. Mas que não chega para o mundo.
"Fascismo em Rede"? Pqp para si. E não vai por extenso porque o blog é seu
Publicado por: jpt em agosto 18, 2004 03:23 PM
JotaVê,
1º É engraçado no que isto deu: a ideia do post era precisamente constatar que existem "muitos tons de cinzento"; que, no limite, nem se deverá falar genericamente de "direita" quando este termo serve para descrever atitudes e pessoas tão diversas entre si.
2º- Mas onde terei eu afirmado ou insinuado que "os que são como nós são os bons"? Não será antes verdade que, em 12 exemplos, aponto qualidades de 8 blogues que, quanto a mim e pese embora todas as suas diferenças, serão de direita?
3º- Quanto ao Muro, confesso que não dei pela efeméride.Será isso mais uma prova da cegueira colectiva da esquerda? Se calhar...
Publicado por: Luis Rainha em agosto 18, 2004 04:12 PM
José Flávio,
Queixa-se você, acima de tudo, por o ter metido no "mesmo saco" de "um declarado fascista". Quer isso dizer que não percebeu nada do que escrevi. É pena, mas a culpa deve ter sido minha. Este post, assim como os dois antecedentes, destinava-se a tornar medianamente claro que isso dos "sacos" não serve para nada; nem para embalar a direita nem a esquerda. Que existe um universo de diferenças entre os vários aderentes a isso da "direita". Se preferiu reparar antes no acessório e empolá-lo de forma absurda, o problema é seu.
Revelador é que você não hesite, à laia de retaliaçãozinha prematura, em embrulhar-me junto com defensores da "miséria terrorista" e praticantes de "solidariedades criminosas", entre outros deficientes de carácter. (E também não parou para reparar que o blogue que refere é sim "um blogue português sobre o movimento fascista"; o que me parece distinto de ser de "um declarado fascista". Mas isto devem ser subtilezas bizantinas, não?) Mas aí, essa história dos "sacos" até deu jeito, não foi?
Quanto a ter rotulado o seu blogue como sendo de direita, que quer que lhe faça? Que lhe peça perdão por ter opinião? Não me faltava mesmo mais nada.
Publicado por: Luis Rainha em agosto 18, 2004 04:31 PM
L. Rainha:
1º - "muitos tons de cizento" à direita que continua muito bem separada da "esquerda"... parece-me que não leu bem o que escrevi.
2º - aponta algumas qualidades aos blogues por si considerados *de direita*: "nós" somos a esquerda, os bons; os outros são a "direita" que, apesar de nitidamente inferiores, até conseguem ter algumas qualidades...
3º - não sei o que é "a cegueira colectiva da esquerda" mas acho lamentável que ninguém tenha feito qualquer referência ao referido muro. Ou ele foi construído pela "esquerda" e, por esse único motivo, até é desculpável?!
Publicado por: JotaVê em agosto 18, 2004 06:40 PM
JotaVê,
1º Sim; claro que a direita continua separada, em termos gerais, da esquerda. Continua a haver naturais "zonas cinzentas" de sobreposição. Isto parece-me óbvio e saudável.
2º Tudo isto começa, se ler os posts associados a este, com um comentário às constantes generalizações sobre "a esquerda", feitos num blogue assumidamente de direita.
No meu texto, onde lobriga essa ideia de nós sermos os "bons"? E isso do "nitidamente inferiores" é mera e total invenção sua: a nada no post pode ser atribuída semelhante intenção, muito antes pelo contrário! A ideia era justamente salientar que, em oposição à tal "direita taxinomista" em apreço, existe também muita direita inteligente (a par, como não podia deixar de ser, com alguma direita burra. Sim; eu sei que também anda por aí muita esquerda burra...).
3º Já foram por aqui feitas menções ao Muro de Berlim, julgo eu. Assinalar a data é que nos escapou. Se eu fosse menos "esquerdista", diria que no dia em que a malta começar a ganhar dinheiro com isto, passa a andar mais atenta ao calendário...
PS: se vier aqui, encontra pessoas de direita que não se incomodam nada com o facto de terem sido assim elogiadas, nem em tal vêem qualquer menosprezo...
Publicado por: Luis Rainha em agosto 18, 2004 06:55 PM
1. vivemos a categorizar. interessante será explicitar os critérios das categorias que usa. V. terá uns, outros terão outros. É-me absolutamente estranha a ideia de que peça V. perdão por qualquer coisa, apenas já não tenho idade para colecções de cromos. Vê-me de "direita"? Surpreende-me mas não choca, ainda que gostasse de saber porquê. Ainda para mais pela companhia. MAs com os critérios seria mais perceptível.
2. Pois, até por aí, gostaria de saber o que é a "direita" e a "esquerda" em Portugal (já nem digo alhures). Que é para tentar perceber melhor o que dessa metáfora deriva.
3. "elogios" diz V (num comentario no ma-schamba). Pois, JV já o referiu, elogios apesar de...V. recusa que isso esteja presente no seu pensamento. Que fazer, se é V. que o diz. Agora que parece óbvio, parece. Alguns de direita têm qualidades, "apesar de direita".
4. Seria interessante fazer uma classificação semelhante aos "blogs de esquerda" - o que não lhe passou pela cabeça, ou pelo menos pelo teclado. Presumo porque a esses não sente necessidade de realçar qualidades ou características pois não haverá nenhum "apesar de...". ESta a minha percepção, ainda que V. a negue. Portanto mera especulação minha. Sem cabimento se V. a negar, como é óbvio.
5. Essa do mero "blog sobre o movimento fascista" é um rodeio. Francamente. Acho (e já postei sobre isso) que aquilo é indigno e ilegal. E ofende-me que alguém (ainda que tenha trocado mensagens comigo) lhe apeteça fazer um post misturando-me com alhos desses, ainda para dizer que os tons são (ligeiramente?) diferentes.
6. Todos categorizamos. Eu, óbvio, também. E talvez tenha cometido um erro. Como já disse é muito raro vir aqui. E sempre pensei que este era um blog relativamente (ou mesmo muito) politizado, e muito ligado ao BE. Devido ao nome (sempre o pensei um bom jogo de letras/palavras) e também por algumas referências lidas por aí. Incorri em erro talvez. O tal "saco" em que V. diz que o meti é mesmo um saco. O saco do BE: o qual, repito, tem as suas origens teóricas, as suas solidariedades nacionais e internacionais. A sua ideia de política [Quando o PRof. Rosas diz que o governo de coligação (de DB, atente-se) Não Tem legimidade porque os partidos não concorreram coligados está objectivamente a recusar a legitimidade da democracia representantiva, e concomitantes coligações parlamentares. Há quem ache Rosas óptimo, apenas um pouco excitado. Eu acho que não, é um académico de peso, e diz o que pensa. Neste caso explicita a recusa do primado democrático representativo- está noutro campo que o meu, não há pontes que nos unam; ele é-me tão perigoso, e indigno, como o tal "fascismo em rede". O seu modelo é o meu silêncio. Desprezo-o e temo-o. E está aqui como exemplo de um partido político ao qual não acho nenhuma piada, apesar do chic retórico e da tardia movida que o anima). Pois pelos vistos é um erro meu, pois V. recusa a associação (não é uma retaliaçãozinha como V. diz, é uma associação que para mim explicitava as diferenças que justificariam o seu post). Mais uma vez, se V. o diz que posso eu dizer, como posso eu afirmá-lo conectado com o BE e suas posições doutrinárias e práticas se V. o desmente? Por o incluir nesse saco, ao qual pelos vistos V. não pertence, desculpo-me. Retiro pois a associação.
7. Finalmente, má-educação: eu uso a língua portuguesa. Há quem vá pela censura. Eu prefiro não. E as metáforas significam o que significam. A que usei explicitou o meu sentimento. Má-educação?
Publicado por: jpt em agosto 18, 2004 08:19 PM
I
Se tivesse que escolher, escolhia o culto (receio bem que, nos miseráveis tempos que correm, cada vez menos influente) e nada aborrecido blogue do José Pacheco Pereira.
II
Aqueles que leram Os Maias, do Eça, talvez se recordem que no fim do romance o Ega começa a aproximar-se cada vez mais do Alencar.
"Ega confessou que realmente agora apreciava imensamente o Alencar. Em primeiro lugar, no meio desta Lisboa postiça, Alencar permanecia o único português genuíno. Depois através da contagiosa intrujice, conservava uma honestidade resistente. Além disso havia nele lealdade, bondade, generosidade. (…) E por fim, no estado a que descambara a literatura, a versalhada do Alencar tomava relevo pela correcção, pela simplicidade, por um resto de sincera emoção. Em resumo, um bardo infinitamente estimável” (Eça de Queirós, Os Maias)
Atenção!
Muito cuidado com o exemplo!
Nem eu sou o Ega nem o Pacheco o Alencar, nem vice-versa. O exemplo serve só para exprimir o facto de cada vez me sentir mais próximo, politicamente, de algumas pessoas de quem já me senti, ou julguei sentir, bem mais afastado.
Por culpa ou por graça do quê?
Pois claro.
Do regresso da ‘choldra’!
Publicado por: jctp em agosto 18, 2004 08:39 PM
Pede-se foto da direita fresca e gira para confirmação.
Publicado por: Povd em agosto 18, 2004 09:03 PM
Bailhamedeuze! Divertidos, os Marretas?
Publicado por: Animal em agosto 18, 2004 09:41 PM
E "nós"? Em minoria? Será?
Publicado por: miguel em agosto 18, 2004 11:35 PM
Luis,
Vai ver o e-mail do BdE, por favor.
Publicado por: Monty em agosto 19, 2004 01:36 AM
Se em vez de direita escreveres esquerda é rigorosamente a mesma bodega, basta ver so candidatos a liderança do PS, e a forma como se dizem de esquerda.
Com um agravante acrescenta-se milhões de "ismos", por isso não percebo onde esta a diferença.
Publicado por: provocador em agosto 19, 2004 10:16 AM
Antes de mais, com tudo o que isso possa ter de subjectivo e erróneo, obrigado pela sugestão e orientação de leitura. Compreendo o desespero de alguns catalogados, embora creio que há algum exagero. A mim que, com alguma naturalidade tendo a incluir-me politicamente no mundo a esquerda, é muito encorajador saber que há tantos blogues de direita bem escritos, sensíveis à cultura, à arte, avessos aos clichés com que muitas vezes pensamos a esquerda ou direita. Essa é aliás, sempre o foi, uma das grandes virtudes da blogosfera. E não adianta ralhar com o L.R. por causa da ideia preconceituosa de que até mesmo na Direita há blogues interessantes e bem escritos, ou, nas suas palavras, "com qualidades". Basta lê-lo para perceber que a ideia não é dele, não se mate o mensageiro. Faz parte do mundo do (pre)conceito sobre as classificações políticas associar a direita a práticas menos hedonistas como a expressão, a valores como o da sensibilidade, etc. Ainda há relativamente pouco tempo num encontro de blogues, alguém, creio que o josé mário silva ou o pedro lomba, referiam a circunstância dos blogues de direita não terem comentários. Na lista que agora faz o Luís Rainha (que não conheço, não sou seu patrono de defesa, embora aprecie, desde o Muro, a sua presença aqui) tem já muitos blogues de direita que adoptam o sistema de comentários, o que é, para quem pensa que a aventura da blogosfera é simultaneamente uma experiência de expressão e comunicação, muito prometedor. E mais do que isso, mostra que aquela ideia de consenso (associada também aos conceito de diferendo) que Habermas tanto defendeu como a regra do funcionamento do espaço público, não é apenas uma utopia dos lugares da boa vontade, o próprio dispositivo tecnológico para lá nos guia e todos nós sabemos que é a ela, à técnica, que a última palavra está autorizada. Arrisco, por mais tempo que levemos em amuos, em desconsiderações mutuas, a blogosfera recalcitrante, incapaz de colocar em diálogo pessoas que pensam de maneira diferente - pessoas para além da esquerda ou direita, ou dentro deste antagonismo militante - terá, cada vez mais, um lugar jurássico, interessante do ponto de vista museológico mas incapaz de progressivamente dizer algo de interessante. É o meu palpite. O que me importa a mim é saber que para fazer ruir esse preconceito é essencial que gente de direita venha jogar esta aventura do risco e da expressão, como também, me parece essencial o esforço classificativo, pueril, decerto, mas útil, do Luís (que não conheço). A todos vós, o meu muito obrigado.
Publicado por: JPN em agosto 20, 2004 03:15 PM
Pelo que parece há, e utilizando o calão, 'Direitas a dar com o pau'...
Abraço.
Publicado por: André em setembro 15, 2004 05:07 PM