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junho 26, 2004
UM FILÓSOFO NA RUA
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Passaram ontem vinte anos sobre a morte de Michel Foucault. Uma efeméride discreta, no meio do alvoroço dos tempos que correm. O jornal Libération dedicou-lhe um caderno especial que pode ser consultado aqui. Aí podemos ler um texto genérico sobre a aventura intelectual foucaldiana; três textos curtos que o filósofo em tempos escreveu para o jornal; uma entrevista com o seu companheiro, Daniel Defert, que depois da sua morte, e na linha da crítica que Foucault desenvolvera sobre o .poder médico., criou uma associação de apoio aos doentes de Sida; testemunhos vários sobre a actualidade do seu pensamento. Destes, gostámos particularmente do texto de Jacques Rancière, que nos fala de um Foucault que soube reinventar, nos confins da sua investigação e da acção militante, a relação do pensamento com a vida. Tentámos por isso uma tradução do último parágrafo. Conta-nos Rancière:
«À imagem convencional, prefiro então a do meu primeiro encontro com o .filósofo na rua.. Foi em junho de 1968. A acreditar nos sérios biógrafos, que ele por vezes conseguiu despistar, ele estava, durante todo esse tempo, longe de Paris e de suas agitações. E no entanto, nessa manhã estava lá; de férias, é verdade, mas quem é que não estava, nessa altura? Incógnito e sem megafone, mas com um impermeável. Nada a ver com a meteorologia, apenas com os jactos de água com os quais os grevistas da Citröen, que ele vinha apoiar, acolhiam os .autónomos. que queriam forçar o piquete. Ele estava lá sem necessidade, não para trazer à luta o conhecimento do sábio ou a voz do filósofo mas, pelo contrário, para percorrer e medir o território das solidariedades enigmáticas onde o pensamento encontra os seus objectos e as suas tarefas. Longe de todas as racionalizações retrospectivas, é este enigma que vale a pena aprofundar.»
Publicado por Manuel Deniz às junho 26, 2004 11:32 PM
Comentários
Discreto e certeiro como sempre Manel. Aquele abraço.
Publicado por: ricardo noronha em junho 29, 2004 02:51 PM