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maio 28, 2004

O INFERNO ARDEU

O incêndio desta segunda-feira, que devorou uma considerável parte da colecção Saatchi, surge como uma notícia terrível para a Arte inglesa contemporânea. Entre muitas obras seminais da "Britart", uma das vítimas confirmadas é o impressionante "Hell", dos irmãos Chapman. Este "diorama" em nove partes foi encomendado por Charles Saatchi em 1998, por cerca de meio milhão de libras. Demorou dois anos a criar, com as suas cenas quase insuportáveis de morte e mutilação articuladas numa visão que só não é "Boschiana" porque permanece perturbadoramente próxima do nosso mundo. Agora, "Hell" só pode ser admirado assim.

Publicado por Luis Rainha às maio 28, 2004 02:00 PM

Comentários


Põe-se uma criança a brincar com o He-man e outros bonecos do género. A criança cresce e utiliza os bonecos para fazer isto.
E nada disto vale a ponta dum corno. É George Grosz a três dimensões, setenta anos mais tarde. Aposto que a exposição foi patrocinada pela Mattel, ou lá como é que se chama a firma que fabrica a Barbie.
Nem sequer se conseguiu lembrar, o artista, de outros "maus" que não os nazis, os maus de serviço, sempre disponíveis para estes patéticos exercícios de boa consciência moral. Ainda bem que o nazismo existiu, dir-se-ia, pois de outro modo como poderia um artista pós-moderno manifestar a sua indignação pela crueldade humana? Ora ora.
Se foi isto que ardeu, viva o incêndio.

Publicado por: nosferatu em maio 29, 2004 01:54 AM

Mas que Grosz? Só por lá andarem uns uniformes alemães? Que "consciência moral"? O facto de a coisa se chamar "Inferno" não obriga a que seja vista como uma BD...
E que "pós-moderno"? Só por não entenderes nada? Se calhar, és dos cromos que pensam que a Arte devia ter sido encerrada após a morte do Picasso. Santa ignorância.
Vai ao "Google", procura por "Dino Chapman" e depois haveremos de falar de novo...

Publicado por: Luis Rainha em maio 29, 2004 02:18 PM

A arte não deve ter acabado com o picasso, o q acabou de certeza foi a criatividade, a genuinidade. eu nada conheço desta saatchi colecção, a não ser as fotos do q ardeu. eu sou uma daquelas q não entende. faltam-me as conceptualizações a priori para poder gostar a posteriori. sou básica, as tendas com os nomes de amantes passados, as banheiras, a infinita sabedoria desta gente, tudo isto é finito. arte não é, é contemporâneo, disso não´há dúvida. e dá dinheiro a ganhar a muita gente. para além de q td parece uma vã tentativa de ultrapassar duchamp. já foi feito. a estes "artistas" falta-lhes olhar para dentro antes de olhar para fora - eu sei q deve ser um desespero,para um destes saatchi boys,viver num tempo em q tudo já foi feito, e nos limitamos a patinar num precário euilíbrio no campo da arte. mas tudo já foi feito, no q a "èpater le bourgeois" diz respeito. esta arte não "èpata" ninguém a não ser os "raros apenas", os escolhidos para a entender e olhar para nós outros com altivo desprezo.
o inferno dda vida neste mundo surreal é bem concreto, real, doloroso, para q posaamos chegar a 1 qualquer galeria e falar da originalidade da técnica,e de como até aí nunca ninguém se tinha lembrado dos soldados de plástico. parece q os ouço "oh! how interesting!". o inferno nada tem de interssante, leiam os jornais, leiam a realidade. para inferno eu sou das q prefiro outras representações, as da paula rego, por exemplo.

Publicado por: noz em maio 30, 2004 01:11 AM


Acerta o Luis Rainha numa coisa: a minha ignorância, que sempre me pareceu, do ponto de vista metodológico, o melhor ponto de partida. E no que ao mundo das artes plásticas contemporâneas diz respeito, assumo alegremente a minha ignorância.
Nada disso me impede porém de tirar algumas conclusões a partir do pouco que tenho visto.
1. Não gosto de pedantes. O pedantismo num artista parece-me um sinal de insuficiência mental. E a verdade é que metade destes rapazes contemporâneos parecm ter passado mais tempo em bibliotecas a ler o Derrida e outros inteligentes, do que nos museus.
2. Também não gosto de artistas semi-analfabetos. E a outra metade dos rapazes contemporâneos neste wonderful world das artes parece ter passado pela vida sem ler nem sentir nada.
3. Mas o que eu abomino mesmo são os conceptualistas, os que pensam que a arte se faz com ideias (similarmente, Degas, sonetista amador, acreditava que a poesia se escrevia com ideias, quando na verdade se escreve com palavras, tal como Mallarmé lho recordou). E os artistas contemporâneos andam completamente obcecada pelas ideias, decerto sugestionados pela verbosidade dos críticos. Vai daí, começam a trabalhar não para o público, mas para os críticos, os seus intérpretes, já que são estes que estabelecem o preço das obras. Assim se organiza uma bela jogatana em que ganham todos: o crítico, porque se sente lisonjeado; o artista, porque recebe palmadinhas nas costas, encomendas, comendas e o mais. E o comprador, porque julga ter feito um bom investimento.
Entre a puerilidade dos que nada sabem e a fatuidade dos que nada sentem se joga o destino das artes plásticas, hoje em dia.
4. A verdade é que, como diz a menina noz, as artes plásticas estão num beco sem saída. Na literatura, por exemplo, a ideia de ruptura com a tradição já não faz qualquer sentido. E por isso podemos ver que o romance, a poesia e o teatro têm sabido renovar-se, porque não temem ir buscar inspiração formal lá atrás, aos clássicos, aos renascentistas, aos românticos, ao que for. Os artistas plásticos, pelo contrário, parecem ter da história da arte um conhecimento que se detém no Duchamp e no Picabia.
5. E não, a arte não fechou com o Picasso. Há excelentes artistas plásticos por aí. Mas não serão talvez esses de de que mais se fala. A última que me supreendeu foi Caterina Albert.

Publicado por: nosferatu em maio 30, 2004 02:11 AM

Uma das coisas boas da Arte é que cada um tem a liberdade de lá encontrar o que quiser. Quem tem medo do que hoje se faz e vê pode sempre fugir assustado em busca de vultos mais habituais. Julgaria eu que a última coisa que os irmãos Chapman poderiam ser acusados seria de "pedantismo"; mas se quiserem preferir a Paula Rego, por favor...

Publicado por: Luis Rainha em maio 30, 2004 02:21 AM

Obrigada! Prefiro, não fujo-evito.

Publicado por: noz em maio 30, 2004 07:40 PM