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maio 27, 2004
MAIS UMA PEQUENA DIABRURA
No seu editorial de hoje, José Manuel Fernandes ataca o Relatório de 2003 da Amnistia Internacional. Fá-lo, como todos vós já por certo adivinharam, por achar que a AI se passou para o campo dos antiamericanos primários. Daí a intitular a croniqueta "Um Relatório Político", foi um saltito.
O libelo acusatório é portentoso: "o que se pode dizer de uma organização que ontem declarou que a situação de direitos humanos no mundo em 2003 foi a pior dos últimos 50 anos?"
Deve dizer-se o que Maomé não disse do toucinho, claro está: "nos últimos 50 anos, ocorreram genocídios como o do Ruanda; durante décadas, houve União Soviética e o .goulag.; na China, dezenas de milhões de pessoas morreram em operações como as do .Grande Salto em Frente. ou na .Revolução Cultural.; na América Latina (...) Face a este breve recordatório, como pode a Amnistia considerar que em 2003 .governos e grupos armados colocaram os direitos humanos e a lei humanitária internacional sob a maior pressão dos últimos 50 anos.? Há apenas uma explicação: aquela organização - que durante a guerra fria era das poucas que mantinha independência em relação aos dois blocos - passou a preocupar-se demasiado com fazer política."
Ao que parece, é irrelevante que a expressão relativa aos tais "50 anos" nem faça parte do relatório, surgindo sim no filme de promoção do mesmo e no press release de lançamento, com a formulação "Amnesty International believes that the past twelve months have seen the most sustained attack on human rights in the past fifty years." Como é bom de ver, "most sustained" significará "mais sustentado" ou "mais persistente"; nunca "maior". E muito menos se encontra por ali a ideia de que a situação "foi a pior dos últimos 50 anos".
Na conferência de imprensa de apresentação deste relatório, uma jornalista teve o cuidado de esclarecer a questão:
"QUESTION (Jane Woodall, Associated Press): You mentioned in your statement that the actions of governments and armed groups are contributing to the greatest sustained attack on human rights in 50 years. Is there any exaggeration there? What about Pol Pot and the Gulag for example?
IRENE KHAN:I think what we are seeing is the spread of the abuse. Yes, there were terrible abuses in the past -- Rwanda, Cambodia, the Balkans, we can continue naming them -- but what we are now seeing is a pervasive culture of abuse that has spread like a cancerous growth, and that is what is so dangerous today, unlike the past."
Se eu encontrei sem dificuldade esta clara transcrição, porque a ignorou JMF? Porque lhe dá muito mais jeito tomar a árvore pela floresta e assim poder denunciar absurdos óbvios onde existe apenas uma frase promocional algo impensada.
Esta alergia à AI surge, como não podia deixar de ser, porque "toda a ênfase vai para as acções dos Estados Unidos, que são avaliadas com base na visão política própria da actual direcção da organização". A heresia, para JMF, é a introdução de opiniões no relatório; como se não fosse uma questão de opiniões distinguir entre um esquadrão da morte e um ordeiro pelotão policial, por mero exemplo. "Assim, será desvalorizado por todos os que suspeitem que o relato dos factos foi influenciado pelas opiniões da introdução", termina o texto de JMF.
A "opinião" que tanto irritou JM é assim apresentada: "A agenda de segurança global promovida pela Administração dos EUA está desprovida de visão e de princípios. Ao violar direitos a nível nacional, ignorando os abusos a nível internacional e recorrendo à força militar em ataques preventivos quando e onde lhe apraz, a Administração dos EUA tem vindo a lesar a justiça e a liberdade e tornou o mundo um local mais perigoso."
Compare-se com o original: "The global security agenda promulgated by the US Administration is bankrupt of vision and bereft of principle. Sacrificing human rights in the name of security at home, turning a blind eye to abuses abroad, and using pre-emptive military force where and when it chooses have neither increased security nor ensured liberty." A história do mundo se ter tornado, graças aos EUA, "um local mais perigoso" não faz parte do contexto. Da mesma forma, o que lá está é "não aumentaram a segurança nem garantiram a liberdade"; longe da tradução martelada "tem vindo a lesar a justiça e a liberdade". Se isto não é uma trafulhice, o que lhe poderemos chamar?
Reveladora, mas ignorada por JMF, é a continuação do excerto citado: "Look at the growing insurgency in Iraq, the increasing anarchy in Afghanistan, the unending spiral of violence in the Middle East, the spate of suicide bombings in crowded cities around the world. Think of the continued repression of the Uighurs in China and the Islamists in Egypt. Imagine the scale and scope of the impunity that has marked gross violations of human rights and humanitarian law in the .forgotten. conflicts in Chechnya, Colombia, the Democratic Republic of the Congo and Nepal . forgotten, that is, by all except those who daily suffer their worst effects."
Irrelevante também é que, na citada conferência de imprensa, a secretária geral da organização, Irene Khan, tenha deixado claro que "We condemned the cruel, callous and criminal attacks of armed groups, whether FARC, or Hamas, or al qa'ida or any other, in the strongest possible terms we deemed them, or at least some of them, as crimes against humanity and asked for those who committed them to be brought to justice."
São assim mencionados vários países e grupos. Mas trata-se sempre de opiniões. Que só se tornam num pecado, para o director do "Público", quando ousam beliscar a intocável honra dos Estados Unidos.
Publicado por Luis Rainha às maio 27, 2004 06:51 PM
Comentários
este texto do fernandes parece decalcado palavra por palavra de uma conversa em familia do marcelo caetano.
Publicado por: tchernignobyl em maio 27, 2004 07:36 PM
Pois é, escusado será dizer que concordo em absoluto com o que disse. Até porque já escrevi um texto também com opinião semelhante.
De facto não se percebe este tipo de editoriais, ainda por cima vindos de um director de um jornal dito de referência.
Cumprimentos
Enresinados!!
Publicado por: cachucho em maio 27, 2004 07:43 PM
luis
100% de acordo contigo
o JMF vê o mundo do seu prisma distorcido e depois tenta adaptara realidade
é um contorcionista mental e dos "bons"
Publicado por: antisectário em maio 27, 2004 08:00 PM
Escondeste o amor na raiz quadrada
Dos segredos que derretem no medo.
Meu e da geometria da fiada
Gente remota que afasta o azedo.
Que em ti encosta. E sua retirada,
Estratégica demais p.ra do degredo
Te resgatarmos numa vida nova,
Ou iniciarmos seguinte prova.
Publicado por: V em maio 27, 2004 09:13 PM
mas afinal em que é que deu a petição que o enviava para o Iraque? Talvez em abu ghraib ele pudesse dar uma palestra sobre o gulag
Publicado por: Pedro Vieira em maio 27, 2004 09:57 PM
Acabada a União Soviética, a que não foram estranhas as rezas diárias a Nossa Senhora, feitas pela conversão da Rússia, muita gente ficou sem inimigo a combater. Deste modo, e porque para sentir que as ideias valem precisam de inventar. E inventam.
Publicado por: amora da silva em maio 27, 2004 11:23 PM
a Turquia já leva 40 anos de fora da europa,quantos mais terá de aguentar??
Publicado por: triciclo em maio 27, 2004 11:28 PM