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maio 20, 2004

VOLUBILIS

No comentário a um post do tchernignobyl, sobre o lançamento (ontem) do seu livro «Quem inventou Marrocos . Diários de Viagem», o Fernando Venâncio teve a delicadeza de perdoar a minha ausência, nestes termos: «Não faz mal, ZM, esteve lá a tua sombra, numa alusão minha ao teu relato de uma visita a Volubilis, cidade romana em ruínas».
É verdade. Eu estive em Volubilis, no coração de Marrocos. E senti naquele lugar coisas que não senti em mais lado nenhum. A começar pela perfeição musical do nome: Volubilis. Vo-lu-bi-lis. Volátil, volúvel, cidade que já não é.

PS- Para os interessados (se os houver), lembrei-me de resgatar o tal texto a que Venâncio se referia, uma crónica publicada no DNA. Está aqui:

As ruínas (em Volubilis)

1. Saímos de Meknès a meio da manhã. Céu azul, sol branco e um autocarro barulhento arrastando-se a passo de caracol, com receio dos polícias que esperam em cada curva, prontos para passar uma multa ou receber a nota da praxe. Ao fim de 30 quilómetros e uma hora de viagem, entrámos em Moulay Idriss, a mais importante cidade islâmica de Marrocos. Telhas verdes, o famoso minarete cilíndrico da medersa de Khiber e casas galopando colina acima, em equilíbrio precário, como se fossem mergulhar de repente no rio Khomane. Nem sequer parámos. O autocarro, ronceiro, limitou-se a abrandar (ainda mais) a marcha, permitindo duas ou três fotos em andamento («vamos lá ver se não sai tremida»), enquanto uma voz ia explicando que «neste mausoléu está enterrado Moulay Idriss, o santo mais venerado do país, que deu nome à cidade e era descendente do Profeta». De novo na estrada, mais quatro quilómetros, um pequeno vale, nuvens de poeira. E depois, Volubilis. Quarenta hectares de ruínas romanas, ainda em escavação, declaradas património mundial pela Unesco, em 1997. Fora do autocarro: grupos de turistas em calções, uma loja de «souvenirs» e vários homens solícitos a oferecerem, em francês, os seus préstimos. «Não vá com os outros, eu é que sou guia oficial» . diziam todos, apontando para o cartão pendurado na lapela. Não, obrigado, não queremos. Não, não queremos mesmo, obrigado. Não, já dissemos que não. Não, não, não. Não. O sol a pique, lá bem no zénite, queimava.

2. Volubilis foi construída no séc. III AC, no local onde já existia uma povoação cartaginesa. Centro administrativo da parte africana do império romano, a cidade exportava cereais para a metrópole e mantinha sob controlo as tribos berberes. Mas o período de crescimento e prosperidade «só» durou 600 anos. No final do terceiro século da nossa era, o imperador Diocletes ordenou que a administração e o exército abandonassem a zona e se deslocassem mais para norte. Foi o princípio do lento declínio de Volubilis. Lento porque a retirada dos romanos não significou o abandono completo da cidade. Muitos habitantes decidiram permanecer e o latim resistiu mais quatro séculos, até à invasão árabe do norte de África. Na verdade, o núcleo urbano só se desfez no séc. XVIII, quando o sultão Moulay Ismaïl mandou demolir muitos dos monumentos, para aproveitar o respectivo mármore na construção dos seus palácios em Meknès. Se este crime arqueológico não tivesse sido cometido, Volubilis seria provavelmente o mais bem preservado vestígio romano a chegar até nós. Mesmo assim, não é difícil reconhecer as estruturas da cidade, as villas, as ruas, os sítios públicos onde se tomavam as decisões políticas ou se celebravam os cultos religiosos. Andar por aqui, nestes caminhos de pedra, é uma experiência ao mesmo tempo exaltante e estranha. Porque esperamos sempre ouvir, na sombra de cada muro, uma voz perdida, um suspiro, uma respiração com dois mil anos.

3. Esta é a rua principal, a Decumanus Maximus, uma espécie de avenida, com pavimento de lages, que desemboca no magnífico Arco do Triunfo mandado construir, em 217 DC, para honra e glória do imperador Caracalla. É este o limite da cidade, a mais formosa das oito portas que ligavam Volubilis ao mundo exterior. Quase a medo, atravesso o Arco. Cada gesto, sem que o queira, ganha peso, ganha uma certa solenidade. E a cabeça, de repente, pesa-me. Deve ser da luz agreste do meio-dia. Procuro uma rocha plana. Sento-me. Recupero o fôlego. Respiro. Descanso. Observo. Fora das muralhas não há nada. À minha frente, ervas bravias. Ao fundo, a linha suave de uma montanha. Atrás de mim, o que sobrou de uma civilização. Penso: as civilizações são como os homens. Crescem, atingem o auge, depois a decadência (às vezes a agonia), morrem, são enterradas e um dia voltam à superfície, sob a forma de um esqueleto partido, coisa mineral, suporte da vida (mas sem vida).

4. Deambulo agora sozinho. E feliz. Sem ponta de cinismo o confesso: a arte de viajar em grupo é saber fugir ao grupo. É saber escapar ao rebanho que pasta onde os guias querem que paste. É escolher o meu rumo, as minhas pausas, as minhas demoras. É poder ler, até ao fim, todas as placas que me aparecerem à frente, sem ter que aturar os remoques dos apressados, que querem sempre «acelerar um bocadinho para chegarmos a tempo» ao autocarro ou ao almoço. Desta vez, nem sei como, tive sorte. Consegui livrar-me com bons modos e agora deambulo sozinho. Agora vejo. Aqui ficava o Forum . harmoniosas as suas colunas, ainda intactas. Aqui eram as termas, ali os lagares de azeite, mais adiante o Capitólio. Admiro sobretudo os mosaicos com cenas mitológicas (Orfeu, Baco, os trabalhos de Hércules, as caçadas de Diana) que transformavam em obras de arte o chão das casas mais ricas. Como a de Euphebus.

5. Na casa de Euphebus, junto aos mosaicos, recordei-me de uma pequena história que Roland Barthes conta em «A Câmara Clara», o seu último livro. Vem logo na primeira página: «Um dia, há muito tempo, encontrei uma fotografia do irmão mais novo de Napoleão, Jerôme (1852). Disse então para comigo, com um espanto que, desde então, nunca consegui reduzir: "Vejo os olhos que viram o Imperador." Por vezes falava desse espanto, mas, como ninguém parecia partilhá-lo nem sequer compreendê-lo (a vida é feita assim, de pequenas solidões), esqueci-o.» Em Volubilis, eu não vi os olhos que viram o imperador. Mas apercebi-me, na casa de Euphebus, que estava a tocar em mosaicos que outros homens, há dois milénios, também tocaram. Homens que viram talvez, num dia de festa, Caracalla ou Diocletes. E foi então que compreendi verdadeiramente . ou seja: melancolicamente (a vida é feita assim, de pequenas solidões) . o espanto de Barthes.

6. Afasto-me das ruínas uns 500 metros e observo-as à distância. Quero compreender porque me parecem, apesar de tudo, tão belas. Penso: uma ruína é a arquitectura que se cansou de existir. Apenas isso. Só que os animais, as árvores ou as pessoas, quando se cansam de existir, morrem. As casas não. As casas não morrem. As casas cansam-se de existir e transformam-se em ruínas. Isto é: ficam para contar a história do seu falhanço, da sua queda. São fantasmas resignados, miragens, assombrações. A beleza das ruínas está, talvez, nesta sua condição trágica: desaparecer, permanecendo. Já não ser tudo, mas ser ainda um pouco. Se as ruínas são belas é porque no ar se desenha, invisível, a memória do que foram.

Publicado por José Mário Silva às maio 20, 2004 09:06 PM

Comentários

Esta é a minha forma de agradecer:


Entre o querer e o ser dúvidas se afogam
P'la onda que atropela as próprias lágrimas;
Irrita o sol secante dos que logram
Fingir nessa verdade as suas lástimas.
Entre o querer e o ser as diferenças moram
E a assunção nos aproxima das máquinas,
'inda longe porquanto saciáveis
Lentos nesse mundo de apaixonáveis.


albertovelasquez.blogspot.com

Publicado por: Velasquez em maio 20, 2004 10:36 PM

Bem; estive até agora à espera de tempo para ler isto. Valeu bem a pena. Fez-me recordar respostas minhas a outras ruínas, noutros restos de outros impérios...

A propósito da tua ideia de fugir aos guias, tenho uma deliciosa memória de estar em Mênfis, a meio caminho entre dois grupos de turistas, ouvindo duas descrições - espantosamente diversas entre si - das mesmas colunas, dos mesmos grupos escultóricos.
:-)

Publicado por: Luis Rainha em maio 21, 2004 12:23 AM