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maio 20, 2004
ISRAEL: A NOVA ESPARTA?

A eficiência dos soldados israelitas é macabra mas notável. Todos os dias, lá os vemos em fileiras ordenadas e letais, espalhando a morte e a destruição por mais um campo de refugiados, sempre sob a protecção atenta de esquadrilhas de Apaches ou de couraçados bandos de tanques made in USA. Aliás, o Tsahal surge mesmo como um dos grandes unificadores da sociedade de onde provém; é bem patente o orgulho que ali o cidadão médio . que mui provavelmente já cumpriu o seu período de serviço militar . dedica às "suas" forças armadas. Estas são, convém não esquecer, descendentes directas dos grupos que lutaram pela independência de Israel (e pela expulsão dos árabes, en passant).
A obsessão securitária que hoje varre todo o panorama social de Israel . levando às escolhas eleitorais que se conhecem ., a militarização do dia-a-dia nos territórios ocupados (e não só), são traços que já dominaram a vida de uma outra nação guerreira: Esparta.
Mas as semelhanças não se ficam por aqui.
Uma guerra que quase terminou em desastre total . a revolta dos messénios - levou a uma reorganização radical da sociedade espartana. Tudo passou a fazer sentido apenas na medida em que contribuía para manter forte o seu exército, que tinha como missão sagrada a defesa da nação e o controlo das populações dos territórios ocupados. Estas, que logo receberam um estatuto servil e se viram privadas de quase todos os direitos cívicos, serviam para trabalhar as terras dos espartanos; não sendo escravos, também não lhes era reconhecida a cidadania ou o direito ao voto.
Os espartanos . sempre de pureza comprovada . viviam em democracia: a Ápela funcionava como assembleia popular, representando os cidadãos, embora estivesse sujeita à autoridade dos Éforos, por norma ex-líderes militares. (Há quem diga que a expressão tecnicamente correcta para descrever o sistema político espartano seria qualquer coisa como "monarquia democrática, oligárquica e timocrática"...) Este sistema representativo, claro está, não contava com os desejos da esmagadora maioria: os indivíduos não-espartanos, os Periecos - que ainda mantinham alguns direitos - e os Hilotas. Estes últimos, como convém a populações ocupadas, tinham como obrigação a obediência cega aos seus amos guerreiros e o trabalho incessante e mal pago. Manter este estado de coisas, livre de rebeliões e interferências dos vizinhos invejosos, era a directiva primordial do estado espartano.
Uma nação que vive do trabalho de uma população colonizada à força. Um povo em que a noção de cidadania coalesce com a de serviço militar. Uma democracia que decide o seu destino e também o dos seu servos . mas sem que estes sejam alguma vez consultados. Um governo nas mãos de antigos generais. Um perpétuo estado de guerra contra insurrectos e nações vizinhas que tentem agitar os ocupados. A glorificação sem limites de um exército poderoso e cruel. A redução dos nativos dos territórios ocupados à condição de mão-de-obra descartável e sub-humana.
Se a isto juntarmos que o éforado espartano estava investido de uma "autoridade divina" que lhe dava direito até a depor os reis, o paralelo fica completo...
Publicado por Luis Rainha às maio 20, 2004 12:39 PM
Comentários
Excelente comparação. Serve para mostrar aos cegos o tipo de sociedade em que Israel se está a tornar (felizmente ainda há muita contestação interna). Sparta: o estado a que ambiciona todo o fascista. O ideal clássico nazi.
Publicado por: viana em maio 20, 2004 01:14 PM
Óptimo post. De facto, o paralelismo é total. O que não anula, antes reforça, o paralelismo com os dois grandes modelos mais recentes do do estado militarista-teocrático iSSraelita: o nazi (Herrenvolk = povo eleito, Lebensraum = Grande Israel, Untermenschen = subhomens palestinianos) e a aprtheid sul-africano (com a maioria da população privada de direitos cívicos e atulhada em bantustões). Israel é um estado nazi que deve ser, tal como o II Reich, aniquilado. A Palestina deve ser um estado único, laico e democrático, onde caberão os judeus não sionistas, além de muçulmanos e cristãos.
Publicado por: euroliberal em maio 20, 2004 03:03 PM
Óptimo post. De facto, o paralelismo é total. O que não anula, antes reforça, o paralelismo com os dois grandes modelos mais recentes do do estado militarista-teocrático iSSraelita: o nazi (Herrenvolk = povo eleito, Lebensraum = Grande Israel, Untermenschen = subhomens palestinianos) e o apartheid sul-africano (com a maioria da população privada de direitos cívicos e atulhada em bantustões). Israel é um estado nazi que deve ser, tal como o III Reich, aniquilado. A Palestina deve ser um estado único, laico e democrático, onde caberão os judeus não sionistas, além de muçulmanos e cristãos. A solução dois estados já era. SSharon inviabilizou-a definitivamente, se é que alguma vez foi viável.
Publicado por: euroliberal em maio 20, 2004 03:06 PM
euroliberal, deixa-me que te diga mas a tua linguagem tem os mesmos elementos fascistas que tanto criticas. O que quer dizer "Israel é um estado nazi que deve ser, tal como o III Reich, aniquilado" ? Que Israel deve ser bombardeado até capitular? Como pareces saber, uma das características principais do pensamento nazi é o conceito de raça eleita, sendo todos os outros desprezados como sub-humanos. Ora, porque uma parte da sociedade israelita aceita a opressão sobre os palestinianos não justifica que alguns ou todos os israelitas sejam considerados sub-humanos de tal modo que nem direito à vida possuem, como resultado de qualquer tipo de guerra contra Israel. Todos são seres humanos, israelitas, palestinianos, tu , eu. Todos merecem o mesmo respeito. A morte de ninguém é admissível a não ser em directa legítima defesa. A pressão sobre Israel deve ser feita a nível político e económico, começando pela condenação total das suas acções e um embargo total à venda de armamento a Israel. Lembra-te que a divisão é uma das tácticas preferidas do fascismo: há os nós e os eles, que não merecem consideração. É por isso fundamental que todos os que se sentem indignados pela situação na Palestina trabalhem juntamente com os israelitas amantes da Paz, como o Gush Shalom. Israel não deve ser condenada, mas sim os israelitas que apoiam Sharon, e que querem tornar Israel numa nova Sparta.
Finalmente, a ideia de uma Palestina única e secular, englobando Israel, onde todos podem viver em Paz, é aquela a que todos os humanistas deviam aspirar. Mas neste momento não é possível. Não por razões políticas, mas simplesmente porque há demasiado ódio de parte a parte. Se as pessoas não querem viver juntas não há nada a fazer. A isso chama-se auto-determinação. A solução agora é dois estados dentro dos limites definidos pela resolução das Nações Unidas de 1947. Talvez daqui a 50 anos as feridas já se tenham curado o suficiente para que possam começar conversações sobre a formação de um estado federalizado....
Publicado por: viana em maio 20, 2004 03:50 PM
Viana:
Também admiro imenso o povo alemão, mas a derrota necessária dos nazis implicou colateralmente a morte de milhões de alemães não necessariamente nazis. Acontece em todas as guerras... Pelo menos, pode-se dizer que os alemães dos anos 30, tal como os israelitas de hoje, são culpados de terem eleito dois carniceiros...
O facto é que o Mundo islãmico (1,3 biliões) e o mundo tout court, não podem mais tolerar as façanhas de um carniceiro sem freio nem travão. E não estão para continuar a ver todas as noites na TV massacres de irmãos palestinianos. Nem a serem permanente ameaçados, atacados e humilhados pelas SS Tsahal (Golan sírio ocupado e anexado, Damasco bombardeado, Libano bombardeado e ocupado a todo o momento, Iraque atacado, Irão ameaçado de ataque por alegadamente querer ter as mesmas armas que Israel já tem, Egipto e Jordânia obrigados à humilhação suprema de terem governos pró-americanos quando 99% da população é ferozmente anti-bussho-ssharonesca, etc.).
O Mundo árabo-islâmico ESTÀ FARTO do terrorismo desses nazis e da inpotência e hipocrisia e dupliucidade de critérios da comunidade internacional (Europa incluida). E é inevitável a prazo uma reacção como a que no século escorraçou os cruzados. Un novo Saladino unirá a Nação árabe, eliminará os colaboracionistas (Mubarak, Abdalah, etc.), dotar-se-á da arma nuclear (para dissuadir Israel de usar as suas...) e atacará de surpresa sem aviso prévio (lição da guerra dos 6 dias...) na máxima força Israel e, mesmo com milhões de baixas, extirpará esse cancro nazi de vez. SSharon e a sua soldadesca serão justiçados.
Se alguns judeus (nazi-sionistas) depois não goatarem de ficar na Palestina "porque detestam árabes", o problema é deles. Segundo o "one man, one vote" a maioria será muçulmana e árabe (tal como é negra na A. do Sul) e só são bem-vindos judeus não sionistas. Aliás espero que não sobrevivam muitos sionistas...
Não há hipótese de negociações, porque nem os mais liberais israelitas aceitam sequer discutir o retorno dos expulsos (e estes nem sequer aceitam muito legitimamente discutir a renuncia a esse direito). Também nenhum israelita aceita que a Palestina tenha um exército e controle as fronteiras exteriores de modo a assugurar a sua segurança. Os palestinianos continuariam cercados pelas SS Tsahal, que repetiriam a todo o momento massacres e incursões como as actuais. Por isso NENHUM palestiniano poderá assinar o tipo de "acordos" (nem o de Genebra) que são propostos actualmente. A guerra é a única solução. Sós, os palestinianos não poderão fazer muito mais do que já fazem. Mas a Nação árabo-islâmica vai poder... E Israel caminha de vitória em vitória até ao aniquilamento final...
Publicado por: euroliberal em maio 20, 2004 06:48 PM
atendendo a que o que se passa na palestina é uma ocupação militar por uma potência colonialista e dado o grau de militantismo dos colonos e do cinismo do poder político e judicial que tem permitido o retalhar do território, favorecido a criação de guettos e roubando despudoradamente todas as fontes de energia e sobrevivência a solução mais lógica se vivessemos num mundo minimamente "lógico" seria a intervenção militar da comunidade internacional para expulsar os invasores e levar os seus lideres a tribunal penal internacional. Isto se houvesse "lógica".
Publicado por: tchernignobyl em maio 21, 2004 06:02 PM
Impressionante o que se pode encontrar neste mundo chamado internet. Blogue de Esquerda - quem diria?
Emprestando as palavras do grande filósofo francês J. P. Sartre: o anti-semitismo é o socialismo dos idiotas.
Eis um perigoso fenômeno que pode acorrer a vários movimentos idealistas - quando falta o comprometimento com os ideais torna-se atraente o desvio da culpa. Muito mais fácil do que trabalhar por um mundo melhor é se dedicar a desenvolver uma doutrina de ódio: é possível atribuir todos os males do mundo aos EUA, Israel e a conspiração capitalista-sionista.
Quando a aristocracia russa quis desviar os interesses do povo (nos primórdios do socialismo), que clamava por comida e melhores condições de vida, escreveu-lhe um livro: os protocolos dos sábios de Sion (1905).
Não hesito em afirmar que este livro atrasou razoavelmente a chegada da revolução comunista. Marx tratava a religião como sendo o ópio do povo. Acrescento a esta categoria o ódio segregacionista; a busca por inimigos imaginários.
Já que neste forum se prestigia tanto as comparações, ilustro: do mesmo modo como hoje os EUA criaram a ameaça terrorista (e no passado, a "caça as bruxas"), e como os nazis manipulavam o povo através do ódio ao comunismo, a esquerda vem sendo afetada por um anti-semitismo crônico contra o "elemento sionista", incentivado em parte por uma esfera que a muito já se vendeu, e que pretende abafar as pretenções do povo.
Que Sharon não é uma flor ninguém discute, mas o estado judeu produziu muito mais do que líderes militares. Um número desproporcional de prêmios nóbeis já foi concedido a este minúsculo país, que deveria ser um exemplo para todo o terceiro mundo: é um dos poucos casos de nações que conseguiram se modernizar através do trabalho da terra sem explorar outros povos (é necessário convir que a mão de obra utilizada para drenar os pântanos era judaica e não árabe).
Ao contrário do afirmado, a instituição máxima de Israel não é o exército, e sim a universidade: Israel é o segundo país do mundo no ranking de publicaçõe científicas por pessoa.
Aliás, Israel é um dos únicos países do mundo aonde ainda persistem os modos de produções agrícolas coletivistas e cooperativista (os kibutzim correspondem a 72% da produção agrícola do país - nada de latifúndios ou iniciativas privadas). Será que existe algum equivalente no miserável mundo árabe, comandado por Sheiks, que prostituindo-se ao neoliberalismo, abandonam o seu povo incentivando o fanatismo religioso contra aqueles com quem eles próprios vivem em conchago?
Não, os árabes não são malditos, (alías nenhum povo pode ser incluído em tal categoria) mas são inegáveis miseráveis. A maior justiça social que pode ser feita com esta horda de infelizes não consiste em destruir o Estado Judeu, e sim em acabar com a aristocracia dos petrodólares. O ideal não é conseguir armas atômicas para o Hamas ou para a Al Qaeda e sim desenvolver o motor movido a hidrogênio e bombardear o Irã com exemplares de "O Capital" ou "A propriedade é um roubo".
Quanto a aclamada "expulsão dos árabes", não passa de mito: praticamente todos os palestinos que hoje se encontram em campos de refugiados, não foram desalojados por tropas israelenses, e sim, conclamados, por líderes como Haj Amin Al Husseini (mufti de Jerusalém durante a guerra de 1948), a abandonar suas casas para que os exércitos árabes pudessem "empurrar os judeus ao mar" com maior facilidade. O único porém, é que os exércitos árabes não cumpriram a sua promessa, e o que ocorreu foi que todos os refugiados palestinos foram alojados em precários campos de refugiados, na Jordânia (que ocupou a Cisjordânia), no Egito (que ocupou a faixa de Gaza), e na Síria.
Que talvez Israel seja um país obcecado por violência é verdade, mas como se colocar no papel de um povo que não pode desfrutar de um simples café em uma esquina sem esquecer do atentado que afligiu o local semanas antes? Sem dúvida o exército é glorificado mas o povo é suficientemente esclarecido para poder pensar por conta própria e não se deixar ser levado por um nacionalismo cego e agressivo. Prova disto é que Israel é a única legítima democracia do Oriente Médio, com separações nítidas entre os 3 poderes, e uma mídia livre de censuras.
Pode até ser que Churchill estivesse certo quando chamou Israel de "esta peque Esparta", mas esqueceu-se de lembrar o nome de Atenas.
P.S.Caso a linguagem lhes soe estranha, deve-se a proveniência brasileira.
Publicado por: Salo Cohen em dezembro 13, 2004 02:14 AM