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maio 06, 2004

SMS TV



Ontem, prestei pela primeira vez atenção a um canal que, há uns meses, a TV Cabo achou por bem levar até minha casa: a SMS TV. Trata-se, tão somente, de um chat room televisivo, aberto a participações via sms (a um custo unitário de 20 cêntimos).
Claro está que o sexo é o único tópico de conversa. Uns minutos de observação bastam para se entender a coisa: há o "mainante", a "mtmeiga" e uma horda de outros nicks, alguns imaginativos, outros apenas funcionais e urgentes; há uns veteranos que dominam códigos próprios; há pares ou trios de criaturas desamparadas a estabelecer e desfazer conversas com a pressa de amibas com cio. Assim de repente, dir-se-ia um grupo de auto-ajuda destinado a tarados recidivos, só que a funcionar em roda-livre por ausência do psiquiatra e de qualquer outra entidade moderadora.
Entre os pedidos de "ninas" e "ninos" para "tclar", "trocar msgs kentes" (e até coisas menos mediadas pela tecnologia), assiste-se ali ao espectáculo acabrunhante da negação total da privacidade. Na SMS TV, a comunicação é em si espectáculo; transcende a sua ambição utilitária e oferece-se ao gozo do voyeur como uma superfície lúdica e mesmerizante que não oculta qualquer profundidade ameaçadora. Ali, tudo é o que parece.
Sei bem que existem milhares, senão milhões, de paragens similares disseminadas pelo ciberespaço. Mas parte da estranheza deste canal provém precisamente da sua acessibilidade universal. E também da deformação que impõe à pacatez dos nossos televisores: de passivos terminais de manso entretenimento passam a arenas onde combatem desejos, vícios, solidões. E onde até nós podemos, sem dificuldade, aceder à condição de gladiadores.

A SMS TV é obscenidade em estado puro: a "cena" que se desloca até expor o que deveria continuar privado. As pulsões, as taras, as carências, as vidas alheias. Tudo é dissecado pelo espectador, sem remorso nem apreensões. Nenhuma curiosidade nos é interdita, nenhum esforço nos é solicitado para vislumbrar aqueles trânsitos de desejos, isentos de vergonha ou pudor. Nada nos impede sequer de pegar num telefone e contactar de viva voz um dos intervenientes no show (se bem que nunca seja esse o objectivo declarado: a segurança relativa das mensagens é preferida).

Apenas resolvi escrever sobre esta tristeza tão trivial quando li no écrã negro da SMS TV uma frase diferente, quase perdida entre convites, desafios, parafilias variadas. Uma mensagem que de súbito iluminou todas as outras num clarão definitivo e implacável: "Estou farto de estar sozinho."

Publicado por Luis Rainha às maio 6, 2004 01:39 PM

Comentários

Para não falar do facto de que pagamos para ter aquela degradação no meio dos outros canais. Mal por mal preferia o canal de Moda. Abraço

Publicado por: Francisco Curate em maio 6, 2004 03:01 PM

Luís: este foi dos melhores posts que já aqui li no BdE. E verdadeiro.

Publicado por: João André em maio 6, 2004 04:34 PM

Belíssimo post. Tristíssima realidade.

Publicado por: maria em maio 6, 2004 05:26 PM

Afinal sempre pode haver algum acordo, mas se isto tivesse sido escrito por alguém de direita era capaz de ser acusado de moralista.

Publicado por: provocador em maio 6, 2004 06:06 PM

Excelente, Luis. E assim poupas-me o martírio de passar dez minutos que sejam em frente à "coisa".

Publicado por: José Mário Silva em maio 6, 2004 06:16 PM

Isso é tudo muito bonito, ó Luís. Mas agora experimenta lá resumir a tua prosa em 160 caracteres. Difícil, né?

Publicado por: fred em maio 6, 2004 08:56 PM

Fred: eu ganho a vida a fazer resumos impossíveis...
:-)

Publicado por: Luis Rainha em maio 6, 2004 10:18 PM