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abril 18, 2004
PÁGINAS FOTOCOPIADAS
«Um contrafogo consiste em fazer arder um bosque na direcção de um incêndio florestal, de modo a que se crie um vazio que as chamas não possam atravessar. Supõe-se que este pequeno vazio deterá o avanço do braseiro imenso privando-o simplesmente do que o alimenta.
Um contraponto é um canto suplementar que diverge da linha melódica. Escrever em contraponto significa escrever em réplica da energia principal.
Uma contracarta consiste num acordo escrito e secreto que anula um contrato público.
Como erguer um contraponto à economia que se tornou geral, aos interesses que ela multiplica, sem incorrer na perseguição imediata ou na fome?
Como fazer valer a força de três ou quatro contra o império de todos?
Estes três ou quatro escondem-se; fundam sociedades secretas frágeis; são forçados a fingir partilhar os costumes joviais e os gestos agressivos dos bárbaros; exibem-se nas suas cidades, nos seus templos, nos seus anfiteatros. Mas no canto, ou seja, in angulo, ou seja, ao abrigo da sombra, secretamente, passam uns aos outros, como se fossem fotografias pornográficas, em vez de folhetos sectários, ou publicitários, ou nacionais (ou seja, em vez de notas de banco), obras publicadas em nove exemplares, ou recordações de livros, ou reprografias dos próprios livros antigos que, entre todas as mercadorias, não mercadejam nada.
Estas páginas fotocopiadas e cinzentas, imagens sem imagens, furam o tempo.
Pascal Quignard, As Sombras Errantes (Gótica)
Publicado por José Mário Silva às abril 18, 2004 12:17 AM