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fevereiro 20, 2004

QUEM ACREDITA NESTE MILAGRE?

Num post anterior, desenvolveu-se uma discussão curiosa, via comentários, acerca do dito "milagre económico chileno", que terá ocorrido sob a batuta dos Chicago Boys de Friedman, durante o reino do ogre Pinochet.
Comentou JCD: "Quando Fidel chegou ao poder, Cuba e Chile estavam ao mesmo nível. Hoje, pior que Cuba restará o Haiti. Melhor que o Chile, já não há."

Retorqui, indo buscar um bookmark antigo, referente a este artigo do colunista do "Observer" Greg Palast.
Vou fazer um resumo da coisa ( mas leiam o artigo completo, que até está em Castelhano), começando por alguns factos interessantes:
Em 1973, quando Pinochet tomou o poder, a taxa de desemprego no Chile era de 4.3%. Em 1983, depois de 10 anos de liberalização selvagem, já atingia os 22%. Os salários reais baixaram 40% sob o governo militar.
Em 1970, 20% da população do Chile vivia na pobreza. Em 1990, quando o ogre saiu do poder, este número duplicara. Belo milagre.
Mas as revelações estavam só a começar:

Nem tive muito trabalho para encontrar mais análises sobre o tal "milagre" que ainda hoje é reverenciado pela escola liberal como se se tratasse da segunda vinda de Cristo à Terra. Por exemplo:
Entre 1972 e 1987, o PNB per capita caiu 6,4%. Em dólares constantes de 1993, o PNB per capita do Chile ultrapassava os $3.600 em 1973. Já em 1993, este apenas recuperara até aos $3.170.
Apenas 5 países da América Latina tiveram um desempenho pior neste indicador, durante os anos "miraculosos" de Pinochet (1974-1989).

Que se terá passado? Algumas das primeiras iniciativas de Pinochet foram: privatizar mais de 200 empresas industriais estatais e 66 bancos; eliminar o salário mínimo e os impostos sobre a riqueza; anular o poder negocial dos sindicatos; amputar a função pública. Resultados? Só em 1982 e 1983, o PNB caiu 19%. As empresas privatizadas, por preços bem abaixo dos seus valores reais, acabaram nas mãos de apenas dois grupos, que passaram a dominar a economia chilena, através de uma espécie de esquema piramidal: com o dinheiro dos seus bancos e apoiados em garantias das suas próprias companhias, começaram a adquirir tudo o que lhes passava à frente. Até 1982, ano em que a pirâmide estourou e ambos os grupos faliram.
Chegado aqui, Pinochet viu-se obrigado a engrenar a marcha-atrás: o salário mínimo e a negociação com os sindicatos regressaram; a função pública "inchou" em meio milhão de empregos; até surgiu a que ainda é a única lei da América do Sul a restringir a circulação de capitais estrangeiros.
Ou seja, foram as velhas receitas do Keynesianismo a salvar a situação. No entanto, o mais estranho estava para vir.
Para evitar a derrocada do sistema de segurança social, Pinochet começou a nacionalizar bancos e indústrias. Fê-lo numa escala bem mais ampla que a do "perigoso comunista" Allende.
Mesmo após as posteriores re-privatizações, um importante sector permaneceu nas mãos do estado: o cobre. Com a folclórica curiosidade de 10% dos lucros do cobre estatal continuarem a pertencer às forças armadas...

O cobre tem representado entre 30 a 70% das exportações do Chile, sendo ainda hoje o motor por detrás da relativa prosperidade deste país. Mas trata-se de um motor nacionalizado, que pouco tem a ver com a "relação entre desenvolvimento e liberdade Económica" que JCD deduziu dos números.
Por outro lado, a agricultura é mais um dos esteios da economia chilena actual; mas apoiada numa classe de proprietários e cooperativas que só tiveram acesso à posse da terra após a reforma agrária levada a cabo pelo governo de Allende!
Palast cita o Professor Arturo Vasquez, da Universidade de Georgetown (esse perigoso antro de esquerdistas), que atribui o sucesso agrícola chileno à destruição do esquema feudal de propriedade antes vigente: "Para ter um milagre económico, talvez seja preciso um governo socialista para antes fazer uma reforma agrária". Ou seja; este académico concorda com o que seria, para JCD, uma brincadeira de "Carnaval"!
Agora, deixo aqui a pergunta retórica: somando tudo isto, quem terá salvo o Chile? Friedman ou o ultrapassado receituário de Keynes?

No seu último comentário, JCD chamou-me a atenção para evolução do Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas. Sobretudo para a evolução que o Chile teve entre 1975 e 2000: 18%. Parece-me muito bem. Mas, pelo que ficou exposto acima, continuo sem ver a relação entre tal surto de desenvolvimento e a "liberdade Económica".

Mas há mais. Pegando no útil Índice de Desenvolvimento Humano . que eu até já tinha referido aqui no BdE, a propósito de Cuba . olhemos para a sua edição relativa aos dados de 2001.
Que encontramos? A situação descrita por JCD: "Hoje, pior que Cuba restará o Haiti. Melhor que o Chile, já não há"? Ou algo de diferente?
Vejamos: Cuba está em 52ª posição, com um índice global de 0,806. O Chile segue em 43º lugar, com 0,832. Ambas as nações estão no patamar de "Desenvolvimento Elevado"; não há qualquer abismo a separá-las.
E há "melhor que o Chile": o Uruguai (40º) e a Costa Rica (42ª) estão à sua frente, para nem mencionar a Argentina (34ª), que hoje deve ter posição algo diferente...
Por outro lado, e sem sair das vizinhanças, Cuba bate nações cheias de liberdade económica como: México, Panamá, Colômbia, Brasil, Venezuela, Jamaica, Peru, Paraguai, Granada e a República Dominicana. Enganou-se ligeiramente o JCD quando me garantia que "pior que Cuba restará o Haiti". (A bem da verdade, este país segue num pouco honroso 150º lugar.)


PS: de Economia, sobram-me uma ténues luzes de duas cadeiras estudadas já há quase 20 anos. A informação acima, e muitas das conclusões, é obra de gente mais informada que eu. Se alguém dentro do assunto quiser enriquecer o que ficou exposto, agradeço. A sério.

Publicado por Luis Rainha às fevereiro 20, 2004 01:07 PM

Comentários

Apanhas-me de saída para mini-férias, por isso deixo-te só umas pequenas notas:

"Cuba bate nações cheias de liberdade económica como: México, Panamá, Colômbia, Brasil, Venezuela, Jamaica, Peru, Paraguai, Granada e a República Dominicana."

Julgo que andas iludido sobre o que é liberdade económica. Neste ranking
http://www.heritage.org/research/features/index/search.html
esses países cheios de liberdade económica, classificam-se assim:

Panamá e Perú - 58º
México - 63º
Brasil - 80º
Colômbia - 83º
Paraguai - 106º
Venezuela - 147º

Outra nota para debater mais tarde: o modo como o HDI trata o rendimento. Para o índice, Cuba entra com um valor superior a 60% do valor dos EUA, quando o seu rendimento per capita é inferir a 20%...

Um abraço liberal e votos de bom Carnaval.
jcd

Publicado por: jcd em fevereiro 20, 2004 05:53 PM

Olha que nesse ranking, Cuba só não fica atrás da Venezuela, dos países que citei... e continua à frente deles no HDI.

Boas férias. Pode ser que nos encontremos no "Escorropicha, Ana!"

Publicado por: Luis Rainha em fevereiro 21, 2004 01:32 AM

Caro Luís Raínha,
Para uma melhor compreensão do milagre económico chileno e da revolução (com sucesso absoluto) que foi a privatização do sistema de Segurança Social, recomendo (especialmente o primeiro, abrangente mas sucinto):
http://www.heritage.org/Research/LatinAmerica/bg1654.cfm
http://www.socialsecurity.org/pubs/ssps/ssp-17es.html
Ao contrário do Sr. Palast, que parece brincar com números e omite fontes, aqui poderá testemunhar o que um processo de liberalização (não só durante a era Pinochet, mas até à data) poderá fazer pela riqueza e desenvolvimento de um país.
Cumprimentos.

Publicado por: Michael Oakeshott em fevereiro 21, 2004 11:51 PM

O "Cato Institute" e a "Heritage Foundation" não serão o que se pode chamar "fontes isentas"...
Mas é interessante notar que o artigo desta última em pouco contraria o que aqui deixei escrito; excepto ao assumir que a liberalização foi uma constante na história do período "Pinochet", algo que não me parece verídico. A honestidade parece algo discutível: por ex., compara-se o peso das empresas nacionalizadas na economia chilena omitindo justamente o período das re-nacionalizações de Pinochet. E não há volta a dar ao facto de as exportações de cobre serem a mola por detrás do crescimento económico do Chile. Uma "mola" estatal...
E ligar "liberdade" ao consulado de um ditador sangrento não me parece a ideia mais coerente da semana.

A consulta deste documento, oriundo do site da Univ. Católica do Chile, parece-me boa ideia:
volcan.facea.puc.cl/economia/ seminarios/2003/11abril.pdf

Só o início do título já é revelador: "From Economic Miracle to Sluggish Performance". Aqui está bem documentada a natureza heterogénea das recentes políticas económicas aplicadas no Chile, bem como a existência de muitos altos e baixos nos seus resultados.

Publicado por: Luis Rainha em fevereiro 22, 2004 01:24 AM