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dezembro 13, 2003
VIDA E OBRA DE ARNON MAARTEN (3)
Eis mais uma peça do compositor Arnon Maarten (1933-1996), analisada pelo musicólogo António Correia Guerreiro:
Trio para viola, contrabaixo e piano Op.2, de 1961 (17 min)
2 andamentos: I - Presto; II - Moderato
Esta obra de câmara, composta por Arnon Maarten quando tinha 28 anos, é marcadamente a "mais debussiana" das obras do compositor.
O primeiro andamento, relativamente curto e muito rápido, trata-se de uma "evocação impressionista de um porto cheio de canais e navios carregando e descarregando enormes volumes".
Torna-se assim relativamente tentador considerar este primeiro andamento como uma pintura do porto de Roterdão, cidade onde sempre viveu Arnon Maarten.
O contrabaixo, em registo muito grave e obsessivamente repetido, contribui de forma decisiva para um ambiente algo claustrofóbico e escuro, acompanhado por um piano emitindo "sons líquidos" e a viola tocando uma melodia "angustiada", como que "presa na garganta sem conseguir gritar". Trata-se assim de uma "paisagem húmida, urbana e cinzenta", pintada à "diabólica velocidade de mil homens a correrem debaixo de enormes fardos".
O segundo andamento é marcadamente contrastante com este primeiro, remetendo mais para a "serena visão de quem contempla uma cidade de dentro de um apartamento aquecido, através de uma janela embaciada".
Este andamento inicia-se com uma bela melodia despreocupada, "quase indulgente" tocada na viola (registo mais agudo). Esta mesma melodia, que facilmente capta a atenção do ouvinte, repete-se depois no piano e finalmente no contrabaixo, originando um canon de aparência perpétua e intrincada.
Rapidamente os três instrumento vão construindo uma "arquitectura complexa, que procura nunca perder o espírito leve com que se inicia o andamento".
Os quase quinze minutos de duração deste andamento sempre pareceram a Arnon Maarten "um franco exagero e um teste à resistência de hipotéticos intérpretes e ouvintes". No entanto, o compositor defende o facto de a obra ter permanecido com esta duração porque lhe "foi sempre impossível, ao longo dos anos, mexer demais num trabalho que [...] vale mais pelo prazer intelectual que deu a construir do que pelo resultado final". Arnon Maarten guardou pois "excelentes memórias dos momentos de fervor e entusiasmo" que viveu ao compor este andamento, pelo que nunca o alterou.
Em nossa opinião, se bem que se possa considerar que a existência de um único tema (não especialmente longo) que percorre todo o andamento, o pode tornar algo monótono, a própria beleza desse tema e as fascinantes sonoridades (principalmente nos registos mais graves) que o compositor extrai dos instrumentos, proporcionam um subtil prazer a que não será também alheia a discreta e crescente complexidade que, com pulso firme, o compositor nos vai revelando.
Este Op.2 termina em anti-climax, após um silêncio momentâneo, com o contrabaixo interpretando uma vez mais o tema do 2º andamento, desta vez em pizzicato à maneira do jazz, enquanto a viola evoca por instantes o tema "angustiado" do 1º andamento e o piano fornece uma inesperada (mas inteligente e "lógica") ligação entre os dois temas, que torna a peça coerente e gratificante.
Publicado por José Mário Silva às dezembro 13, 2003 07:12 PM